185 empregos e um deserto de candidatos

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A metalomecânica produtora de torres eólicas do grupo A. Silva Matos, a ASM Industries, deverá inaugurar uma nova fábrica no porto de Aveiro no primeiro trimestre de 2019.

A empresa liderada por Adelino Costa Matos está a fechar financiamento com um fundo de capital de risco e a ultimar as negociações com o porto de Aveiro para viabilizar a nova unidade, orçada em €30 milhões. E esta deverá mesmo ser a fase mais simples de todo o processo.

O pior, reconhece o CEO da ASM Industries, será contratar os 100 profissionais necessários para pôr a fábrica a funcionar. Para minimizar o problema, a empresa criou uma escola de formação dentro do grupo que lidera.

As dificuldades de contratação não são novidade para o líder da ASM Industries, que detém a maior produtora de torres eólicas do país e que preside também à Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE).

Em 2016, Adelino Costa Matos anunciou a intenção de contratar 50 novos profissionais, com qualificação em várias áreas essenciais à indústria metalomecânica, para a sua operação em Sever do Vouga. Mais de um ano e meio depois, dos 50 necessários ainda só conseguiu recrutar 25.

“Não há candidatos para trabalhar nesta área”, desabafa o CEO, assegurando que já nem está preocupado em contratar “o candidato ideal, com as qualificações essenciais para a função”. É, garante, “difícil contratar até candidatos indiferenciados”.

A emigração de um número elevado de profissionais qualificados, “empurrados pela crise”, a que se assistiu na última década em Portugal é apenas uma parte de um problema que Adelino Costa Matos diz ser muito mais vasto. “Houve, e bem, nos últimos anos, uma grande aposta em elevar as qualificações dos portugueses e atrair um número crescente de jovens para as universidades.

A verdade é que isto tem um preço, e estamos a pagá-lo com a ausência de profissionais com competências mais técnicas, colocando às empresas do sector da indústria, por exemplo, sérias dificuldades de contratação”, explica.

No espaço de um ano e meio, as necessidades de pessoal da ASM Industries aumentaram muito. Fruto do crescimento da empresa e dos novos investimentos que o grupo realizou e continua a realizar em solo nacional — com a construção de duas novas fábricas —, já não bastam 50 profissionais para garantir a produção.

Além dos 25 profissionais que a ASM Industries ainda não conseguiu contratar para Sever do Vouga, a empresa precisa de 60 trabalhadores altamente qualificados para a nova linha de fabrico que está a abrir em Setúbal. Mais. Precisará de 100 quando, em 2019, entrar em atividade a nova fábrica do porto de Aveiro. Contas feitas, a empresa tem 185 oportunidades de emprego, mas lida com “um problema sério de falta de candidatos”, segundo Adelino Matos.

EMPREGADOR E FORMADOR

Para ultrapassar esta dificuldade, o líder da ASM Industries criou uma academia de formação interna, que, a partir de 15 de novembro, começará a dar formação gratuita aos profissionais que queiram abraçar uma carreira numa indústria que é uma das maiores exportadoras nacionais e que oferece salários aliciantes.

“Na área da soldadura, por exemplo, são praticados salários base que podem variar entre os €1500 e os €2000, a que acrescem subsídios de turno e prémios, que no caso da nossa empresa podem chegar a 20% do salário base”, explica.

O programa criado pela ASM Industries tem como objetivo formar 100 profissionais até ao final do segundo trimestre de 2019, para colmatar a falta de trabalhadores qualificados no mercado e, consequentemente, ultrapassar as dificuldades de contratação da empresa.

O objetivo desta formação gratuita em áreas como o oxicorte (processo de separação de metais), a calandragem (produção de peças através da compressão de metais), a soldadura e a serralharia é “que os profissionais possam depois ser integrados na empresa”, garante Adelino Matos.

A formação será ministrada em grupos de oito elementos e contempla uma vertente teórica e outra prática: 16 horas em sala de formação teórica, 160 horas de prática em bancada de trabalho na escola de soldadura e outras 160 horas em contexto real de trabalho.

A liderar esta formação estará uma equipa multifacetada de profissionais com experiência, que trabalham em fábricas há mais de 30 anos. O líder da ASM Industries reconhece que a indústria “continua a não ser um setor sexy para trabalhar” e que, por isso, “é muito difícil atrair profissionais”.

E realça a importância de mudar esta mentalidade. Até porque, mais do que precisar de pessoas para trabalho braçal, “hoje, a Indústria 4.0 obriga a que os profissionais estejam qualificados e aptos para operar máquinas”.

Segundo contas da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), o sector tem um défice de 28 mil trabalhadores. Há um ano, as empresas de metalurgia e de metalomecânica avançavam que o défice de profissionais qualificados nesta área rondaria os 5 mil a 10 mil.

Este artigo foi publicado originalmente no Expresso

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