A Geração Morangos

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Há uns dias parei junto à minha antiga escola. Tudo agora é tão diferente. Começando pelo número de alunos, é muito menor ao do meu tempo. Os intervalos deles também são diferentes dos meus.

Agora é vê-los de telemóvel na mão a comentar entre si as postagens do Facebook. No meu tempo – e falando assim parece que já tenho 50 anos, quando na verdade tenho 23 – os nossos intervalos eram passados a conversar, a correr uns atrás dos outros, a ouvir música ou a copiar os TPC que nos esquecemos – ou fingimos esquecer – de fazer.

As nossas músicas eram as da banda sonora dos Morangos com Açúcar, hoje em dia é só Kizomba. TT, D’ZRT, 4Taste, La Harissa, Linkin Park, Coldplay, FF, Slimmy, Yves Larock, R.I.O, Fingertips, Fredfox, JP e Danito, Expensive Soul, entre muitos outros, quase que nem existem.

Tudo mudou, se transformou em muito pouco tempo. Passamos da banda sonora dos MCA e do Reggaeton, para a kizomba. Passamos das 1500 mensagens grátis semanais, para um tempo em que basta desbloquear o telemóvel para ter tudo e mais alguma coisa sem nenhum esforço.

Ainda me recordo dos intervalos que passava à espera da minha vez para aceder aos computadores da escola. Nesse tempo a nossa febre era a do Hi5. Todos – ou quase todos tínhamos – mas não passávamos lá o dia. Se conseguíssemos aceder à nossa conta uma vez por dia já era bom. Aceitávamos os amigos, dava-mos uma espreitadela pelo mural, e depois saímos para o mundo real.

No mundo real falávamos sentados nas escadas dos corredores cobertos, observava-mos as relações dos outros que iam começando ou acabando, olhávamos uns para os outros e todos se conheciam de vista. Hoje todos se conhecem do Facebook.

Para nos aproximarmos de alguém, não era só enviar um pedido de amizade. Tínhamos muito mais trabalho. Descobrir os amigos em comum que nos apresentassem, conquistar o número de telemóvel, e depois ir conversando por mensagens, que esgotavam muito antes do fim de semana. Era um tempo em que ainda haviam limitações, mas que tinha muita mais emoção.

As nossas séries principais eram os Morangos com Açúcar e New Wave. Andávamos semanas à procura daquela música, que tocou naquela cena, e que ninguém sabia onde arranjar. Depois sem estares à espera, alguém a tinha num CD gravado e pedias que to emprestasse para gravares para ti.

Nem todos tínhamos acesso aos downloads piratas, o que não nos ajudava. Se quiséssemos uma música não tínhamos o Shazam para nos dizer o nome, a banda e o álbum dela. Tínhamos que fazer um basto trabalho de investigação, e estar atento às rádios ou às revistas juvenis.

Quem tinha o CD dos Morangos tinha que fazer umas 20 cópias para a turma inteira. Depois cantávamos todos juntos nos intervalos, comentávamos o episódio anterior, e claro, sofríamos em conjunto os nossos ‘dramas’. Tenho a impressão de que no meu tempo, éramos todos muito mais solidários, muito mais apegados… havia muito mais emoção.

O final do ano era dramático. Não íamos estar com os nossos amigos 3 meses seguidos. Era terrível. Agora todos se encontram nas festas, fazem vídeo-chamadas, arranjam sempre alguém que os leve ao encontro do outro amigo. No meu tempo não havia saídas à noite como há hoje em dia. Era tudo diferente. Muito diferente.

Percorríamos umas 10 vezes a escola de uma ponta à outra, enquanto conversávamos sobre tudo. E o conversar, era conversar olhos nos olhos, não a olhar para o telemóvel o tempo todo!

Acho que a nova geração está cheia de facilidades em relação a tudo. Não critico, atenção. Cada geração vive consoante lhe é permitido viver. Mas que, há 8 anos atrás, tudo era mais real disso não tenho dúvidas.

É na dificuldade e na luta que fazemos para conquistar algo, que aprendemos a dar valor às coisas. Hoje as pessoas ouvem uma música que gostam 10 vezes, mas rápido se cansam dela. Porquê? Porque não tiveram trabalho em descobrir o nome ou a banda. Abrem o Shazam ou procuram no Youtube e encontram. Há internet à disposição de todos no telemóvel.

Hoje em dia, se não tivermos mensagens grátis, não há problema, é só ligar o Wi-fi e mandar mensagens pelo Facebook. Antes se não tivéssemos mensagens grátis, tínhamos que esperar o resto da semana até voltarmos a tê-las. Era terrível não ter mensagens. Era uma seca, mas aguentávamos.

Os tempos mudaram tão repentinamente que chega a ser assustador. Não que a evolução tecnológica seja má, não é isso, mas que afastou mais as pessoas é um facto. Que hoje se vive em função de um Smartphone é uma realidade. Tudo gira à volta do telemóvel e se ficarmos sem bateria morremos. Sim, nós vivemos enquanto dura a bateria do telemóvel, porque depois de ele se desligar entramos em modo off.

Mas até para isso já há solução: basta comprar um carregador portátil e não há bateria que acabe!

Eu agradeço muito por ter vivido na Geração Morangos o tempo da minha adolescência.

Foi bom não ter internet à disposição o tempo todo, foi bom ter que lutar por um lugar no computador da biblioteca, foi bom andar semanas à procura daquela música que não nos saía da cabeça mas que nem sabíamos quem a cantava, foi bom os intervalos a conversar olhos nos olhos, a jogar à apanhada ou simplesmente a passear para passar o tempo.

Foi um tempo bom. Um tempo sem wi-fi, sem facebook, sem snapchat e sem shazam, mas mesmo assim, foi inesquecível para quem o viveu.

E toda a gente, que viveu a Geração Morangos, sabe do que falo.

Texto de Fábio Teixeira

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