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“A metamorfose dos pássaros” ou o cinema para responder a questões existenciais

Lisboa, 18 fev 2020 (Lusa) – A realizadora portuguesa Catarina Vasconcelos encontrou no cinema a forma de materializar algumas questões para as quais não tinha resposta, e fez “A metamorfose dos pássaros”, filme que estreará este mês no Festival de Berlim.

“Eu faço design e depois há uma série de coisas que o design não permite, que tem a ver com estas questões muito mais existencialistas, e quando questionamos o mundo, como é que o conseguimos materializar? O cinema possibilita a materialização de algumas questões que não têm resposta”, afirmou a realizadora em entrevista à agência Lusa.

“A metamorfose dos pássaros” é a primeira longa-metragem de Catarina Vasconcelos, 33 anos, e fará a estreia mundial numa nova secção competitiva em Berlim, intitulada “Encontros”, destinada a “novas vozes do cinema”.

Catarina Vasconcelos demorou-se seis anos na criação deste filme, depois de ter feito a primeira curta-metragem, “Metáfora ou a tristeza virada do avesso” (2013), em contexto académico em Londres.

Os dois filmes aproximam-se em aspetos formais e temáticos e interligam-se porque Catarina Vasconcelos filmou a família, abordando a relação dos pais e a morte da mãe na curta-metragem, e a história de amor dos avós e a morte da avó paterna – que nunca conheceu -, na longa-metragem.

“Eu queria que [o filme] fosse sobre esta família, mas que pudesse falar com outras pessoas. (….) O tempo que ele demora é quase o tempo que eu demoro a conseguir sair de mim para chegar aos outros. Consegui libertar-me da minha família e do medo de inventar sobre eles, para poder inventar à vontade. Isso foi muito importante”, contou.

É por isso que Catarina Vasconcelos apresenta “A metamorfose dos pássaros” como um ‘documentário-ficção’, um filme que está no meio, um “híbrido de formas” baseado nas memórias das infâncias e juventudes da família e preenchido pela ficção.

“As famílias funcionam assim, há coisas que não se contam. E se eles não me contam, eu podia inventar sobre isso. Às tantas vou fazer um documentário e rapidamente aquilo se tornou ficção. Comecei a divertir-me muito [e a imaginar] ‘e se eles fossem assim?'”, admitiu.

Para compor toda a narrativa de “A metamorfose dos pássaros”, Catarina Vasconcelos partiu de conversas que teve com vários familiares – sobretudo o pai -, convidou-os para entrarem no filme, recorreu a fotografias de arquivo, gravações e objetos do universo pessoal dos avós, pais, tios.

Sobre este filme, Catarina Vasconcelos fala de “um processo altamente íntimo e pessoal”, na conjugação da montagem de som e imagem, devedora de uma relação que a realizadora tem com as artes plásticas e descrita como “uma coisa muito analógica, de bricolagem”.

Há planos que parecem pinturas ou fotografias animadas, composições visuais encenadas e metafóricas, cheias de simbolismos, sobre a passagem do tempo e sobre a omnipresença da natureza.

“Todo este lado que vem mais das artes plásticas foi muito importante e o filme não podia ter sido construído noutro sítio. Foram as soluções que encontrei para dar resposta a coisas que eu sentia”, explicou.

Sem formação em cinema, Catarina Vasconcelos estudou Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e fez uma pós-graduação em Antropologia Visual no ISCTE, onde começou a filmar. Depois rumou a Londres para um mestrado em Comunicação Visual e aconteceu-lhe a primeira curta-metragem, que lhe valeu um prémio no festival de Cinema du Réel, em França.

“Acho que as dúvidas existenciais que eu tinha acabaram por encontrar algum sossego quando encontrei o cinema. É uma arte muito generosa que pode abarcar muitas coisas. (…) Para mim o cinema tem esta generosidade para contar histórias”, explicou.

Produzido por Pedro Duarte e Joana Gusmão, com apoio financeiro do Instituto do Cinema e Audiovisual, RTP e Fundação Calouste Gulbenkian, e distribuído pela agência Portugal Film, “A metamorfose dos pássaros” será exibido no dia 28 e será também uma estreia para Catarina Vasconcelos num dos mais relevantes festivais europeus.

“Como nunca lá estive estou muito entusiasmada, estou feliz por poder mostrar o filme num festival tão interessante e conceituado”, disse.

O Festival de Cinema de Berlim começa na quinta-feira e termina no dia 01 de março.

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