Instalar painéis solares e turbinas eólicas está a tornar-se cada vez mais rápido e barato. O problema é que produzir eletricidade limpa não basta. É preciso conseguir transportá-la desde o local onde é gerada até às casas, empresas, fábricas e cidades que a vão consumir.
E é precisamente aí que começa um dos maiores desafios da transição energética: a rede elétrica não está a crescer ao mesmo ritmo que a produção renovável e o consumo de eletricidade.
É uma dificuldade que já se sente em vários países e que deverá tornar-se cada vez mais relevante à medida que se multiplicam os parques solares, baterias, carros elétricos, bombas de calor e centros de dados.
A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que existem atualmente mais de 2.500 GW de projetos de produção, armazenamento e grandes consumidores à espera de ligação às redes elétricas em todo o mundo. É uma dimensão enorme: muitos projetos estão praticamente prontos para avançar, mas não têm capacidade disponível para se ligar ao sistema.
O próximo grande obstáculo às energias renováveis pode, por isso, já não estar na capacidade de produzir eletricidade. Está em conseguir transportá-la.
A rede elétrica foi construída para um sistema que está a desaparecer
Grande parte das redes elétricas atualmente existentes foi planeada numa época bastante diferente.
Tradicionalmente, a produção estava concentrada num número relativamente pequeno de grandes centrais. A eletricidade era produzida em centrais térmicas, nucleares ou hidroelétricas e transportada através de linhas de alta tensão até aos principais centros de consumo.
As renováveis alteraram completamente esta lógica.
Um parque eólico pode surgir numa região pouco povoada onde existe vento abundante. Uma central solar pode ser construída longe das grandes cidades. Ao mesmo tempo, milhares de pequenas instalações fotovoltaicas passaram a produzir eletricidade diretamente nos telhados das casas e empresas.
A eletricidade deixou de circular apenas numa direção.
Agora pode existir produção distribuída por milhares de pontos diferentes, enquanto novos consumidores de grande dimensão, como centros de dados ou sistemas de carregamento de veículos elétricos, aparecem em locais onde anteriormente a rede não estava preparada para grandes cargas.
O resultado é uma infraestrutura que precisa de ser profundamente adaptada.
Na União Europeia, cerca de 40% das redes de distribuição têm mais de 40 anos. A Comissão Europeia estima que serão necessários aproximadamente 584 mil milhões de euros de investimento em redes elétricas até 2030, sobretudo na distribuição, para acompanhar a eletrificação e a expansão das renováveis.
Construir energia renovável é mais rápido do que construir uma rede elétrica
Existe ainda outro problema difícil de resolver: os prazos.
Segundo a IEA, um projeto solar ou eólico pode normalmente ser desenvolvido em aproximadamente um a cinco anos. Um novo centro de dados pode precisar de um a três anos e infraestruturas de carregamento de veículos elétricos podem surgir ainda mais rapidamente.
Uma nova infraestrutura de rede elétrica pode demorar entre cinco e 15 anos, contando com planeamento, licenciamento e construção.
Cria-se assim uma espécie de corrida desigual.
Quando a nova linha finalmente está pronta, podem já existir dezenas de novos projetos à espera de capacidade.
Além disso, construir novas linhas de alta tensão não é simples. É necessário encontrar corredores adequados, obter autorizações, avaliar impactos ambientais, adquirir terrenos ou direitos de passagem e ultrapassar frequentemente a resistência das populações locais.
Tudo isto ajuda a explicar porque as filas para ligação à rede se estão a transformar num problema internacional.
O problema também começa a ser muito português
Portugal é um bom exemplo de como o sistema elétrico está a mudar rapidamente.
Em 2025, o consumo abastecido através da rede pública atingiu 53,1 TWh, o valor anual mais elevado alguma vez registado no país e 3,2% acima de 2024.
Ao mesmo tempo, as fontes renováveis produziram cerca de 37 TWh, suficientes para representar 68% do consumo nacional.
O crescimento da energia solar destacou-se particularmente: a produção fotovoltaica aumentou 25% num único ano. A energia hidroelétrica representou 27% do consumo português, a eólica 25%, a solar 11% e a biomassa 5%.
É uma transformação impressionante, mas também aumenta a importância da rede elétrica.
Quando existe muita produção solar durante determinadas horas do dia ou um período particularmente favorável de vento, é necessário ter capacidade para levar essa eletricidade para outros locais, armazená-la ou exportá-la.
Quando essa capacidade não existe, pode ser necessário limitar a produção.
Ter uma central capaz de produzir eletricidade não significa automaticamente conseguir aproveitar toda essa energia.
Portugal ganhou uma nova ligação a Espanha, mas os Pirenéus continuam a ser um obstáculo
Uma das formas de resolver este problema passa por aumentar as ligações entre países.
Em julho de 2026 foi inaugurada uma nova interligação elétrica de 400 kV entre o norte de Portugal e a Galiza.
A nova infraestrutura acrescentou aproximadamente 1.000 MW à capacidade de intercâmbio entre Portugal e Espanha. Segundo a Comissão Europeia, a capacidade passou para cerca de 4.200 MW no sentido Espanha-Portugal e 3.500 MW no sentido Portugal-Espanha.
Estas ligações funcionam como autoestradas internacionais para a eletricidade.
Se Portugal produzir mais energia renovável do que necessita num determinado momento, uma rede mais interligada permite exportar parte dessa eletricidade. O mesmo acontece no sentido contrário quando existe maior necessidade de importação.
Mas existe um problema geográfico.
Portugal está ligado a Espanha, mas a Península Ibérica continua relativamente pouco ligada ao restante sistema europeu devido à reduzida capacidade de interligação entre Espanha e França.
Dados da Comissão Europeia indicam que Portugal apresentava no início de 2026 uma taxa de interligação de aproximadamente 13,3%, ainda abaixo da meta europeia de 15% para 2030. Em Espanha, essa percentagem era de apenas 3,1%.
Uma das infraestruturas destinadas a mudar esta situação é a interligação através do Golfo da Biscaia, que deverá aumentar a capacidade de troca entre Espanha e França para cerca de 5.000 MW, aproximadamente o dobro da existente antes do projeto.
Para Portugal, melhorar estas ligações é particularmente relevante porque permite integrar mais produção renovável e reduzir o relativo isolamento energético da Península Ibérica.
O apagão ibérico mostrou que o desafio não é apenas construir mais linhas
O grande apagão de 28 de abril de 2025, que deixou Portugal continental e Espanha sem eletricidade, tornou também muito mais visível uma questão que normalmente passa despercebida: operar uma rede elétrica moderna é extremamente complexo.
O relatório final da ENTSO-E, publicado em março de 2026, não atribuiu o apagão a uma única tecnologia ou causa.
A investigação identificou uma combinação de fatores, incluindo oscilações, problemas relacionados com o controlo de tensão e potência reativa, diferenças nas práticas de regulação, reduções rápidas de produção e desligamentos de unidades geradoras em Espanha. Essa sequência acabou por provocar aumentos rápidos de tensão e desligamentos em cascata.
É uma distinção importante.
A discussão sobre as redes elétricas não deve ser reduzida à ideia de que as renováveis tornam automaticamente uma rede instável. O verdadeiro desafio está em adaptar a operação, os equipamentos, as regras e os mecanismos de estabilização a um sistema profundamente diferente daquele para o qual grande parte da infraestrutura foi originalmente concebida.
A própria ENTSO-E considera que o episódio mostrou a necessidade de melhorar a monitorização, a coordenação entre operadores e a capacidade de estabilização do sistema.
Nem sempre é preciso construir uma nova linha
A solução mais evidente para uma rede congestionada seria construir mais linhas elétricas. Mas isso é caro e demorado.
Uma parte surpreendentemente grande do problema pode ser resolvida aproveitando melhor aquilo que já existe.
A IEA estima que alterações regulatórias e novas tecnologias aplicadas às redes existentes poderiam libertar capacidade suficiente para permitir a ligação de 1.200 a 1.600 GW de projetos atualmente em espera.
Uma das soluções é a chamada classificação dinâmica das linhas.
Tradicionalmente, existe um limite relativamente conservador para a quantidade de eletricidade que pode passar numa linha. Mas essa capacidade varia consoante fatores como temperatura, vento ou condições do próprio cabo.
Sensores e sistemas de monitorização permitem calcular em tempo real quanto pode realmente ser transportado com segurança. Segundo a IEA, esta tecnologia pode aumentar em determinadas situações a capacidade disponível de uma linha em cerca de 20% a 30%.
Outra possibilidade passa por substituir os condutores existentes por cabos capazes de transportar mais eletricidade sem ser necessário construir um corredor de alta tensão completamente novo.
A digitalização da rede, sistemas automáticos de gestão de fluxos e melhores previsões de produção renovável também permitem utilizar a infraestrutura de forma mais eficiente.
As baterias começam a funcionar como uma extensão da rede elétrica
Existe ainda outra peça que deverá ganhar enorme importância: o armazenamento.
Imagine uma região com muitos parques solares onde, ao meio-dia, existe mais produção do que a rede consegue transportar.
Uma grande bateria pode absorver parte dessa eletricidade e devolvê-la algumas horas depois, quando a produção solar diminui e o consumo aumenta.
Não substitui todas as necessidades de construção de rede, mas pode aliviar congestionamentos e adiar determinados investimentos.
A expansão deste mercado já é rápida. A capacidade mundial de baterias de grande escala aumentou 63 GW apenas em 2024, atingindo aproximadamente 124 GW instalados, segundo a IEA. Os custos dos projetos também caíram cerca de 40% nesse ano.
À medida que o preço do armazenamento diminui, baterias instaladas junto de parques renováveis, subestações, fábricas ou grandes centros de consumo poderão tornar-se uma ferramenta habitual de gestão das redes.
Até os consumidores vão fazer parte da solução
A rede elétrica do futuro também deverá depender mais da flexibilidade do consumo.
Não significa pedir às pessoas para deixarem de utilizar eletricidade. Significa deslocar determinadas utilizações para momentos em que existe mais energia disponível.
Um carro elétrico parado durante toda a noite, por exemplo, não necessita obrigatoriamente de carregar às 19 horas, precisamente quando milhões de pessoas chegam a casa.
Um sistema inteligente pode carregar o veículo às 2 ou 3 da manhã, quando o consumo é menor.
O mesmo princípio pode ser aplicado a bombas de calor, equipamentos industriais, baterias domésticas e outros aparelhos.
Contadores inteligentes e tarifas mais dinâmicas podem criar incentivos para este comportamento. A Comissão Europeia está precisamente a preparar regras para aumentar a participação da chamada resposta da procura nos mercados elétricos e permitir que consumidores e sistemas de armazenamento ajudem a gerir congestionamentos e outros serviços da rede.
A corrida pelas energias renováveis entrou numa nova fase
Durante anos, grande parte da discussão sobre a transição energética concentrou-se numa pergunta: como produzir eletricidade limpa suficientemente barata para substituir os combustíveis fósseis?
Essa questão ainda é importante, mas começa a deixar de ser a única.
Solar e eólica conseguem hoje ser instaladas a uma velocidade que coloca uma pressão inédita sobre infraestruturas construídas durante décadas para outro modelo de produção e consumo.
A Europa já respondeu com um novo pacote dedicado às redes elétricas, apresentado em dezembro de 2025, que pretende acelerar licenciamentos, melhorar o planeamento entre países, facilitar investimentos antecipados e utilizar de forma mais eficiente as infraestruturas existentes.
O investimento necessário será enorme. A IEA calcula que o investimento mundial anual em redes, atualmente na ordem dos 400 mil milhões de dólares, terá de aumentar cerca de 50% até 2030 para acompanhar a evolução esperada da procura de eletricidade.
Mas construir mais não será suficiente.
Será necessário combinar novas linhas com armazenamento, interligações entre países, redes inteligentes, gestão flexível da procura, sensores, novos equipamentos e regras de ligação mais eficientes.
Portugal encontra-se numa posição particularmente interessante nesta transformação. O país já consegue produzir uma grande parte da eletricidade a partir de fontes renováveis e continua a aumentar rapidamente a capacidade solar.
O próximo desafio será garantir que toda essa energia consegue chegar onde é necessária — precisamente quando é necessária.
Porque a transição energética pode ter começado com painéis solares e turbinas eólicas, mas uma parte decisiva da próxima década será muito menos visível: modernizar os milhões de quilómetros de cabos, linhas e subestações que mantêm a eletricidade em movimento.






