A última Grande Diva de Portugal

Se fosse viva, completaria 99 anos de vida. Uma vida cheia. Digna de um filme. De uma diva.

No ano em que se assinalam 20 anos após a sua morte – a 6 de outubro de 1999 – recordamos Amália.

A Diva de Negro. A Diva do fado. A nossa Diva.

No registo de nascimento de Amália da Piedade Rebordão Rodrigues, consta a data de 23 de julho de 1920. Porém, uma vez que existem algumas dúvidas sobre esse facto, a artista resolveu adoptar o dia 1 de julho como data da aniversário, durante toda a vida.

Amália nasceu em Lisboa por mero acaso, uma vez que os pais estavam de visita aos avós maternos.

Depois de um curto período em Lisboa à procura de uma vida melhor, aspais acabariam por regressar ao Fundão deixando a filha, na altura com pouco mais de um ano, ao cuidado dos avós.

Com apenas 6 anos, os avós mudam-se para o bairro de Alcântara, onde Amália ficará a viver até aos 19 anos. Abandona os estudos depois de completar a escola primária. Aprendeu costura e a bordar e foi operária de uma fábrica de chocolates. Com a irmã, Celeste, vendeu fruta pelas ruas do cais de Alcântara.

Amália desde muito cedo que mostrou gosto e prazer por cantar. Em 1935 foi escolhida para cantar o ‘Fado Alcântara’, nas festas dos Santos Populares.

Em 1938, faz audições para disputar o prémio Rainha do Fado. Não chega a participar mas conhece o seu primeiro marido: o guitarrista Francisco da Cruz com quem casa em 1940. Uma união que durou pouco, embora o divórcio só se tenha concretizado em 1949.

Voltará a casar, em 1961, no Brasil, com César Henrique de Seabra Rangel, com quem vive até ao falecimento deste em 1997.

Amália fez a sua estreia profissional em 1939, no Retiro da Severa, onde se exibe durante 6 meses. O seu sucesso é de tal ordem que rapidamente se torna cabeça de cartaz e o seu cachet atinge valores nunca antes pagos a um fadista. Por esta altura já não canta diariamente, fazendo-o apenas 4 vezes por mês e recebendo por actuação.

A partir de 1941 as suas actuações serão menos regulares, mas ainda assim uma constante na cidade de Lisboa, até ao início dos anos 50.

A partir do início da década de 1950, Amália realiza longas viagens de digressão. Por isso, as suas aparições em Portugal limitam-se a alguns espectáculos anuais, nomeadamente, a Grande Noite do fado, o Natal dos Hospitais, o Reveillon do Casino Estoril e festas de beneficência.

Só no dia 19 de abril de 1985 apresenta o seu primeiro concerto individual em Portugal. Foi no Coliseu dos Recreios de Lisboa, num espectáculo que viria a ser repetido no Coliseu do Porto a 26 de abril do mesmo ano.

A sua primeira saída do país acontece em 1943, para actuar numa festa do embaixador português em Madrid. No ano seguinte, vai ao Brasil onde actua no Casino de Copacabana e na Rádio Globo. Permanecerá no Brasil entre 1945 e 1946, altura em que grava os seus primeiros discos.

As viagens e espectáculos no estrangeiro tornam-se uma constante na vida de Amália que se transforma numa estrela à escala mundial. Em 1949, actua em Paris e Londres. Em 1950 faz um autêntico périplo internacional que a leva a Berlim, Roma, Berna, Dublin e outra vez Paris. Em 1952, canta pela primeira vez em Nova Iorque. No ano seguinte, actua na Cidade do México e regressa a Nova Iorque.

Em 1956, estreia-se no Olympia de Paris. Voltará à emblemática sala francesa em 1959 e 1960. Em 1957, canta em Estocolmo, Lausane e Caracas.

Amália / Facebook

Entre 1960 e 1961, Amália regressa ao Brasil com vários espectáculos. Ainda durante a década de 1960, actua em Tunes, Argel, Bruxelas e Atenas. Participa no Festival Internacional de Edimburgo e canta em várias cidades de Israel e em Moscovo.

Em 1970 esteve pela primeira vez no Japão, onde volta em 1976, 1986 e 1990. Em 1972, canta na Austrália.

Em 1989, grava um espectáculo para a televisão espanhola. Ainda nesse ano, comemora os 50 anos de actividade artística profissional, realizando uma tournée com espectáculos em Espanha, França, Suiça, Portugal, Israel, Índia, Macau, Japão, Bélgica, Estados Unidos e Itália.

Amália Rodrigues não se. Resumiu aos espectáculos e aos discos. A fadista também deixou a sua marca no teatro e no cinema.

A estreia no teatro deu-se em 1940, no Teatro Maria Vitória, com a peça “Ora vai Tu!”. Até 1947 participou em várias peças e operetas. Voltaria ao teatro mais tarde, em 1955, para participar na reposição da peça “Severa”, no Teatro Monumental.

A entrada no cinema dá-se em 1947, a 16 de maio, no papel de ‘Maria Lisboa’, no filme “Capas Negras”. No mesmo ano protagonizou “Fado, História de Uma Cantadeira”.

Voltará ao cinema em 1949 no filme “Sol e Toiros”.

Amália Rodrigues / Facebook

As suas últimas prestações para o cinema dão-se, sucessivamente, em 1958 no filme “Sangue Toureiro”; em 1964 em “Fado Corrido” e em 1965, no filme “As Ilhas Encantadas”.

Amália Rodrigues destacou-se, igualmente, pela forma como inovou na postura e no guarda-roupa dos fadistas- Inovações essas que se revelariam em verdadeiras convenções performativas, como é o caso do uso do vestido e xaile negros, e ainda o posicionamento à frente dos guitarristas.

O interesse pela poesia erudita foi outra novidade ‘imposta’ pela fadista. Logo no início da década de 1950, Amália grava “Fria Claridade”, de Pedro Homem de Mello e, em 1953, “Primavera” de David Mourão-Ferreira. A colaboração com estes dois poetas foi uma constante ao longo de toda a carreira. Mas houve outros: Alexandre O’Neill, Manuel Alegre e José Carlos Ary dos Santos.

Ao longo da sua carreira, Amália criou muitos poemas que depois interpretou e editou em disco. Alguns desses poemas estão entre os temas que mais sucesso tiveram. Entre esses temas estão: “Estranha Forma de Vida”, “Lágrima” ou “Trago o Fado nos Sentidos”.

Em 1987 foi lançada a biografia oficial da fadista. Escrita por Vitor Pavão dos Santos, a obra teve por base entrevistas realizadas entre novembro de 1985 e setembro de 1986.

Em 1989 Amália comemorou 50 anos de carreira. Nesse ano e no seguinte, foram vários os eventos que assinalaram esse facto. Destaque para um espectáculo no Coliseu dos Recreios e para a exposição “Amália Rodrigues: 50 anos”, no Museu Nacional do Teatro.

Em jeito de celebração, a artista fez uma digressão mundial com espectáculos em Espanha, França, Suiça, Macau, Japão, Bélgica, Itália, Israel e Estados Unidos.

Amália deixou os palcos em 1994.

Morreu no dia 6 de outubro de 1999. O seu funeral foi uma enorme manifestação de saudade e de agradecimento. O país inteiro chorou o desaparecimento da ‘sua’ Diva do Fado.
Os seus restos mortais foram transladados do Cemitério dos Prazeres para o Panteão Nacional, no dia 8 de julho de 2001.

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