“Ainda bem que o bispo do Porto está do nosso lado”. Sindicatos querem supermercados e centros comerciais fechados ao domingo

Descanso ao domingo é não só um direito laboral, mas também um direito do trabalhador ao lazer e ao tempo com a família, defendem os sindicatos. D. Manuel Linda relançou o tema na missa de domingo de Páscoa.

“Não há qualquer motivo para o comércio, em geral, estar aberto ao domingo.” É assim que Isabel Camarinha, dirigente do CESP – Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal complementa as declarações do bispo do Porto, que este domingo afirmou, durante a homilia da missa de Páscoa, que a abertura de supermercados e centros comerciais ao domingo é um exemplo de um “novo esclavagismo” laboral e “expressão de um certo subdesenvolvimento humano e económico”.

Isabel Camarinha concorda com D. Manuel Linda, sublinhando que esta “é uma reivindicação do CESP” desde que, em 2010, os estabelecimento comerciais passaram a poder abrir durante todo o dia de domingo (e não apenas até às 13h). E recorda que “Portugal é um dos poucos países da Europa” em que os estabelecimentos comerciais estão abertos ao domingo.

O sindicato afeto à CGTP tem, aliás, um pré-aviso de greve para o 1º de Maio, Dia do Trabalhador, na qual uma das reivindicações é precisamente o encerramento dos estabelecimentos no dia 1 de maio, domingos e feriados.

“Ainda bem que o bispo também está do nosso lado”, diz ao Expresso, recordando que “Portugal tem uma cultura e forma de estar muito associada à religião” e que “domingo é dia de descanso e de prática de culto religioso”.

CONCILIAR VIDA FAMILIAR, PESSOAL E PROFISSIONAL

As reivindicações do CESP são acompanhadas pelo SITESE – Sindicato dos Trabalhadores e Técnicos de Serviços, Comércio, Restauração e Turismo, que afirma que este é um tema que extravasa as questões puramente laborais.

“Esta reivindicação prende-se com a conciliação da vida pessoal e familiar com a vida profissional”, escreve ao Expresso Luís Azinheira, presidente do sindicato afeto à UGT. “Não trabalhar ao domingo significa a melhoria nas condições de vida e de trabalho, nomeadamente no descanso, na articulação com a vida privada e na dignificação de quem trabalha”.

À semelhança do bispo do Porto que aponta para o risco de “fracionamento dos encontros familiares”, Isabel Camarinha recorda que existem “muitas mães e pais” neste sector e que estes têm dificuldade em conciliar a profissão com o tempo necessário para acompanhar os filhos.

A responsável destaca ainda uma vantagem económica – que esteve, aliás, na origem da lei criada em 1996 pelo executivo socialista de António Guterres para limitar o horário dominical dos hipermercados até às 13h e assim proteger o comércio tradicional. “O facto das grandes superfícies encerrarem ao domingo também beneficia o pequeno comércio”, acredita. Isto porque “os grandes têm trabalhadores suficientes para abrirem todos os dias”, mas “os pequenos não”, diz, sublinhando que o objetivo é que todos os estabelecimentos – independentemente da dimensão – encerrem ao domingo.

A dirigente do CESP rejeita que o encerramento das grandes superfícies um dia por semana possa originar despedimentos. “A esmagadora maioria dos hipermercados tem tanta falta de pessoal que, mesmo que fechem ao domingo, não há esse risco”, garante. “Os salários são muito baixos, os horários terríveis e é muito difícil contratar e reter pessoas.”

Aspetos que levam o Luís Azinheira, do SITESE, a sublinhar a “importância [de] rever e atualizar os salários base destes trabalhadores”. “No sector da grande distribuição, houve apenas a um aumento salarial, em 2016, algo que já não acontecia desde o ano de 2010.”

O Expresso tentou contactar o Lidl e a Sonae, mas não obteve resposta até à hora de publicação desta notícia. Já a Jerónimo Martins remete para a APED – Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição. Em declarações ao Expresso, a associação defende que “a liberalização dos horários é uma questão que importa a todos os sectores de atividade económica, não sendo um exclusivo da distribuição” e “procura responder a uma dinâmica social que tem como base a proximidade, a conveniência e a diversidade de oferta, indo ao encontro das expectativas dos consumidores”.

Publicado originalmente em: Expresso

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