Brincar de Rua: como Leiria espera contagiar pais e crianças

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Num fim de tarde de outubro, o parque infantil do bairro dos Capuchos, em Leiria, está vazio. Talvez ficasse assim – como é comum em tantos parques das cidades portuguesas – se daqui a pouco não entrassem pela pequena cancela 15 crianças, de várias idades, para participar no projeto Brincar de Rua, que ali funciona desde o ano passado.

Durante duas horas, faz de conta que voltámos ao tempo em que as crianças brincavam livremente na rua, se encontravam depois da escola nos pátios dos prédios ou na esquina da rua. Como o tempo é outro, fazem-no agora de forma vigiada, com dois ou três adultos por perto, voluntários do programa já considerados “embaixadores do brincar”.

Mas vamos então ao princípio, quando o principal dinamizador deste projeto, o psicomotricista Francisco Lontro, começou a desenhar a ideia, em conjunto com alguns amigos, alguns deles pais, outros ligados pela via profissional ao desenvolvimento infantil. “As primeiras conversas aconteceram em novembro e dezembro de 2015, então com a ideia vaga de pôr os miúdos a brincar na rua. Sempre pensámos em dar ferramentas à comunidade e não sermos nós a fazer o projeto.”

Agora que está lançado, é assim que será. Mas retomemos então esse ponto, quando o grupo começou por se constituir na Ludotempo – Associação de Promoção do do Brincar, sabendo à partida que “o grande problema de Portugal passa por estarmos sempre à espera de que alguém faça por nós”.

Nas conversas do grupo havia sempre uma tónica: “Percebíamos todos que se fala muito da importância do brincar – e a ciência tem mostrado muito isso – como uma grande caixa de Pandora, mas não se fala da importância do brincar livre, que parte da relação com os outros e do meio que envolve a criança”.

Os países europeus estão cheios de exemplos similares, de play groups, grupos mais ou menos informais, com um mediador. Nalguns casos, como no Reino Unido, o patamar já é outro: há pais que se organizam e fecham uma rua, por exemplo, para permitir que os filhos ali brinquem em segurança.

“Tem que ver com a extrema densidade ocupacional e a impreparação das cidades para acolher as crianças. Aqui não estamos nesse nível aqui”, sublinha Francisco Lontro. “Achávamos que Leiria tinha poucos locais, e viemos a descobrir que isso não é verdade.

A cidade afinal oferece muitas condições, para além do que as pessoas imaginam, porque é que as crianças não vêm para a rua?” As respostas, já todos sabiam. “Isso começa desde pequeno e os meninos não estão habituados a usufruir do espaço rua. Isso vai-se multiplicando, como se para se divertirem tivessem de estar entre quatro paredes e com alguma coisa programada.”

A Ludotempo sabia bem o que queria: combater o sedentarismo, criar algum equilíbrio na vida das crianças, permitir-lhes brincar de forma livre, incentivando o que já foi natural e deixou de ser – que as atividades permitam “um cariz de maior relação com o seu próprio corpo e com as nossas emoções.

Porque apesar de não estarmos a dar muita importância a isso, estar tantas horas em frente a um ecrã tira-nos uma capacidade de crescer do ponto de vista pessoal e social, de cultivar a relação uns com os outros”, explica Francisco Lontro, enquanto recebe os primeiros deste grupo que se encontra à quinta-feira, das 17.30 às 19.30, para brincar.

Além do bairro dos Capuchos, pioneiro do projeto, há já outros locais com outros grupos, como o Jardim de Santo Agostinho (sexta-feira), a Urbanização de Santa Clara (sábado) e a Gândara dos Olivais (terça), estes na periferia da cidade.

Apoiado pela Fundação UEFA

O Brincar de Rua arrancou oficialmente em 2016. “Divulgámos o programa, procurámos voluntários, que pudessem ser vigilantes – mostrar aos miúdos que estão ali em segurança e dar-lhes esse tempo para que possam usufruir do espaço e utilizá-lo como entenderem na relação entre pares, miúdos com diferentes culturas de brincar e de lidar com a frustração. E com a rua.”

Os voluntários (que recebem formação e a quem é pedido um registo criminal) são na maioria pais. Paralelamente, a Ludotempo foi batendo a várias portas, à procura de apoios. Primeiro juntaram-se parceiros locais, como a Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria, a PSP, a junta de freguesia ou o IPJ.

Depois veio a candidatura a um programa da Fundação Gulbenkian, que não lhes deu o prémio mas permitiu-lhes o acesso a um curso intensivo de formação. E já neste ano a associação candidatou-se a uma bolsa da UEFA Foundation for Children, que se dedica à promoção de programas de atividade física para crianças, e acreditou no Brincar de Rua. “Ficámos entre os 12 premiados em todo o mundo”, conta o responsável.

Com a verba recebida, a Ludotempo espera concretizar o passo que falta: criar uma plataforma digital que permita gerir, online, os grupos que forem nascendo no país. E há várias cidades interessadas em agarrar o projeto, desde Lisboa ao Porto, até Vila Real de Santo António ou Açores.

“Se em Freixo de Espada à Cinta houver um grupo de pelo menos duas pessoas, que são válidas, que têm um local onde pode acontecer, basta um mínimo de cinco crianças e um máximo de 15 para ter um grupo”, destaca Francisco Lontro. É só sair à rua e brincar com os amigos do bairro, no dia e na hora marcados, como dantes.

Este artigo foi publicado originalmente no Diário de Notícias

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