Coscuvilhar faz bem e recomenda-se

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Existe a política, o desporto, a música, a economia. No entanto, todos estes assuntos importantes e sérios só ocupam um terço do tempo que gastamos a conversar. A fatia do leão dos momentos com amigos e conhecidos está por conta dos assuntos sociais (chamemos-lhe assim) – casamentos, batizados, amores e ódios. A conclusão é de Robin Dunbar, o professor da Universidade de Oxford, referência no estudo da Antropologia e da Psicologia Evolutiva.

Numa análise conduzida pelo investigador, que se dedica também ao acompanhamento de primatas, dois terços de todas as conversas, que mantemos ao longo da vida, são sobre relações pessoais, que é como quem diz “mexericar”. Em termos sociológicos, define-se fofocar ou coscuvilhar como o ato de falar de alguém, emitindo uma avaliação da pessoa e do seu comportamento, quando o visado não está presente. O famoso “falar pelas costas”.

Todos praticamos este exercício, homens e mulheres, novos e velhos, na aldeia ou na cidade, no café ou nas redes sociais. E não vem mal nenhum ao mundo por isso, apesar de, desde pequeninos, nos sentirmos culpados por este tipo de atitudes. Aliás, classificar alguém como coscuvilheiro tem normalmente uma conotação negativa. E é verdade que, por vezes, o mexerico pode ser usado de forma nefasta para autopromoção, confundindo-se com a intriga.

Porém, psicólogos e antropólogos têm vindo a realçar outros aspetos, positivos, do ato de falar acerca da vida de outrem. E isto, além de não ser um comportamento negativo, pode inclusivamente estar na base do aparecimento da linguagem. “O facto de estes temas serem tão importantes para nós sugere que esta seja uma função primordial da linguagem”, afirmou Robin Dunbar, num artigo publicado na revista The Atlantic. “A fofoca é o que possibilita a existência de sociedades humanas, tal como as conhecemos.”

FORA DO MEXERICO, FORA DO GRUPO

Por que razão precisamos de desenvolver uma forma tão eficaz de comunicar? Na teoria deste investigador, a necessidade foi surgindo à medida que os humanos cresceram e se multiplicaram. De grupos pequenos, em que todos os elementos se conheciam bem, os nossos antepassados passaram a viver em comunidades cada vez maiores. A sobrevivência num ambiente hostil e agreste obrigou a que houvesse uma boa comunicação e uma excelente cooperação entre o grupo. Ao mesmo tempo, também se tornou essencial perceber quem é quem – onde estão as ameaças e a concorrência, quer em termos de alimento quer em termos de acasalamento. Quem é de confiança, quem é aldrabão, quem daria o melhor parceiro, o aliado mais forte. Dar e receber este género de informação passou a ser essencial. “Os indivíduos que eram mais competentes a usar a sua inteligência social, a interpretar, prever e influenciar o comportamento dos outros tornaram-se mais bem-sucedidos do que os que não o eram”, escreve o professor de Psicologia Frank T. McAndrew, da Universidade Knox, nos Estados Unidos da América, num artigo de divulgação científica do site The Conversation.

Os genes destes indivíduos – os vencedores do grupo – prevalecem até hoje, ou seja, a nossa preocupação com a vida dos outros é uma herança do cérebro pré-histórico, que nos dá vantagem competitiva. “Hoje em dia, alguém que seja bom a falar da vida dos outros é um influenciador e um membro popular do seu grupo social. Divulgar segredos é uma forma de estabelecer ligação e partilhar um bom mexerico com outra pessoa é um sinal de confiança profunda: quem o faz acredita que quem recebe esta informação sensível não a vai usar contra si”, continua Frank McAndrew.

É por isso que, por um lado, os mais talentosos na arte da fofoca estão sempre mais bem informados e gozam de boa reputação nos grupos alargados de pessoas. Por outro, os que se mantêm à margem das conversas sobre a vida alheia acabam por não ser bem aceites, sendo classificados como pessoas não confiáveis.

“QUEM TE AVISA…”

Estudos feitos em ambientes de trabalho confirmam esta tese. A fofoca inofensiva, entre colegas, pode cimentar a coesão do grupo, além de animar os espíritos. Também é importante para os recém-chegados, que, ao participarem numa conversa deste tipo, ficam a perceber as normas e os valores que vigoram na organização.

Em contexto laboral, a má-língua tem ainda outra relevância que é a possibilidade de se transformar num estímulo. O receio de que nos tornemos alvo de mexerico pode ser uma força positiva que impede que nos aproveitemos dos outros. Por exemplo, num estudo feito com mariscadores de lagosta do Maine, nos EUA, verificou-se que aqueles que desrespeitaram as normas de quando e como as lagostas podiam ser apanhadas eram expostos pelo grupo, ficando proscritos durante um período.

Há uma certa função social, que permite interiorizar os comportamentos aceitáveis e os condenáveis, reforça um trabalho de um grupo de investigadores da Universidade de Queensland, Austrália. “O mexerico do dia a dia ajuda-nos a construir ligações sociais e a desenvolver um melhor conhecimento dos grupos e das sociedades aos quais pertencemos”, refere-se num comunicado.

Veja-se o caso #MeToo e o movimento contra o assédio sexual que começou com o diz-que-disse em torno do produtor de Hollywood Harvey Weinstein. “A fofoca sobre Harvey Weinstein teve sem dúvida nenhuma consequências negativas para ele, tais como a perda de trabalho e a expulsão de uma série de empresas e sociedades, mas pode também ter tido consequências para todos nós, os que participámos nela”, sublinha a psicóloga social daquela instituição australiana, Jolanda Jetten. “Coscuvilhar permite-nos monitorizar a reputação de outras pessoas e, ao ficarmos a par dos seus comportamentos, estamos mais bem posicionados para decidir se devemos confiar nelas ou não, no futuro”, resume a psicóloga.

A ETIQUETA DA FOFOCA

Não é por se tratar de um “prazer culposo” que não deve ter regras. Siga as dicas e tire partido de uma boa conversa sobre a vida dos outros.

1 Manter segredo: Convém ser discreto, para não criar conflitos.

2 Partilhar informação útil: É preciso que a informação partilhada seja vantajosa para o grupo, de modo a ser valorizada.

3 Não contar mentiras: Faltar à verdade pode fazê–lo perder a credibilidade, além de prejudicar o visado de forma injusta.

4 Estabelecer ligação com o ouvinte: A passagem da informação deve ser acompanhada por emoção, o que potencia a relação entre os coscuvilheiros.

Este artigo foi publicado originalmente na Visão

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