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Covid-19: Açorianos do Nordeste confiam nos esforços de contenção apesar dos vários casos

Nordeste, Açores, 10 abr 2020 (Lusa) — No Nordeste, onde foram detetados 12 casos de covid-19 num lar de idosos, as poucas pessoas que se veem na rua confiam que as autoridades fizeram tudo o que era possível para conter a propagação.

É no centro da vila do Nordeste, a capital do concelho menos povoado da ilha açoriana de São Miguel, que se encontra o lar de idosos da Santa Casa da Misericórdia do Nordeste, onde há registo, até ao momento, de 12 casos de infeção por covid-19.

O primeiro desses casos foi o de uma utente de 88 anos, que contraiu a infeção no Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, depois de lhe ter sido transmitida por uma profissional de saúde.

Esta foi a primeira vítima mortal com covid-19 nos Açores, registando-se, desde então, outras duas mortes de utentes desta estrutura que estavam infetados com o novo coronavírus.

Numa vila deserta, as poucas pessoas vistas na rua conversam com os vizinhos que aparecem nos quintais ou à porta de casa.

É numa rua contígua àquela em que se situa o lar, junto a uma garagem, que a agência Lusa fala com um homem e uma mulher, vizinhos, ambos de meia idade e que não se querem identificar. Conversam mantendo um distanciamento para lá do recomendado.

A duas ou três casas de distância do equipamento da Santa Casa, a nordestense explica que a instituição “encerrou o lar há três semanas” e que “tomaram todas as medidas”.

“Se há Santa Casa que tenha as coisas em condições, é a nossa. As pessoas do centro de dia já não vinham. Eles mantiveram essa precaução. Fizeram tudo o que puderam. Mas se uma senhora tem de ir ao hospital, pois claro que tem de ir ao hospital”, considera.

E prossegue com os elogios à qualidade da instituição, atestando que os utentes “entram para ali moribundos e arrebitam”.

Os moradores próximos do lar não foram avisados de nenhuma das medidas implementadas, nem quando foi decidido vedar o espaço, mas a nordestense defende que “ninguém tem de avisar”. “Já estamos avisados. A gente sabe pela televisão”, acrescenta.

O vizinho com quem fala diz não saber muito sobre o assunto: “Tenho uma quinta, ali em cima, estou ali entretido. As pessoas, para saber as coisas, têm de ir para os cafés, mas está tudo fechado e eu estou sempre em casa”.

Segundo o morador, “as pessoas estão a respeitar” as regras impostas, “porque não se vê ninguém pelas ruas”.

Os dois vizinhos concordam em que é natural que surjam casos e que a maneira como a situação vai evoluir depende do comportamento da população: “A única preocupação é as pessoas não se respeitarem umas às outras. Se as pessoas se respeitassem, as coisas eram muito melhores.”

Essa é também a opinião de Lúcia Melo, que está na rua “só porque tem mesmo de ser”.

A situação que se vive, numa ilha onde foi decretada uma cerca sanitária que restringe a circulação entre os seis concelhos, “é irresponsabilidade de quem não cumpre a quarentena, de quem sai de casa inconscientemente”.

“As pessoas é que têm de ter consciência. Quem me dera a mim poder não sair, porque estou a zelar pela minha saúde, pela saúde dos meus filhos e da população em si”, atesta, a caminho das compras.

O “único erro” que a funcionária pública, que já trabalhou no lar de idosos da Santa Casa “há muitos anos”, aponta na gestão deste surto é que “devia ter sido feito o teste” à utente do lar antes de sair do hospital de Ponta Delgada.

Mas a ex-trabalhadora da instituição sublinha que, no lar em questão, “as condições são excelentes e têm capacidade para ter cada pessoa isolada no seu devido lugar”.

Apesar de reconhecer a necessidade, Lúcia lembra que as medidas de confinamento são muito difíceis para os idosos e para as famílias: “Conheço pessoas que têm familiares lá dentro e é muito triste saber que temos um familiar lá dentro e que não podemos ver, não podemos contactar. Há as tecnologias, mas não é a mesma coisa. Só o tocar com a mão, isso faz muita diferença, principalmente para os idosos”.

No seu entender, “mesmo que já não tenham o seu perfeito juízo – há uns que têm e outros que não têm -, só o contacto físico e ouvir a voz ali ao lado faz muita diferença para eles”. Por isso, acredita que “neste momento, muitos estejam abatidos”.

O contexto é delicado, “mas não há grande pânico” no concelho, afirma, apesar de acreditar que os funcionários do lar estejam stressados com a situação.

Com quase cinco mil habitantes, o concelho do Nordeste faz fronteira a sul com a Povoação e a oeste com a Ribeira Grande. Por ser o mais distante de Ponta Delgada, chegou a ser apelidado de “décima ilha dos Açores”, antes de a construção da via rápida sem custos para o utilizador (SCUT) ter facilitado o acesso ao município, que compreende 13 freguesias.

O concelho está isolado dos restantes cinco desde que foi, na passada sexta-feira, decretada uma cerca sanitária que restringe a circulação entre os seis concelhos micaelenses a profissionais de saúde ou trabalhadores de setores considerados essenciais.

A Unidade de Saúde da Ilha de São Miguel criou uma enfermaria específica, com capacidade para 12 camas, no Centro de Saúde do Nordeste, para acolher os utentes do lar da Misericórdia do Nordeste com diagnóstico positivo de covid-19.

Os funcionários do lar infetados ficarão isolados em contexto domiciliário ou, nos casos em que tal seja necessário, em unidades hoteleiras disponibilizadas para acolher profissionais de saúde com covid-19.

Os casos positivos de covid-19 nos Açores dividem-se entre as ilhas de São Miguel (44), Terceira (oito), Graciosa (quatro), São Jorge (sete), Pico (dez) e Faial (cinco).

Portugal regista 435 mortos associados à covid-19 e 15.472 infetados, indica o boletim epidemiológico de hoje divulgado pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

ILYD (CYB) // ROC

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