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Covid-19: Entre os receios e o novo normal, Camarate adapta-se às restrições

Loures, Lisboa, 16 jul 2020 (Lusa) — Na União de Freguesias de Camarate, Unhos e Apelação, às portas de Lisboa, o comércio fecha às 20:00 devido ao estado de calamidade em que ainda se encontra, medida com que os habitantes concordam por tirar as pessoas da rua.

Nesta área do concelho de Loures, as ruas já não estão cheias como num dia normal de semana. Desde março que tudo mudou com a chegada dos primeiros casos de covid-19 a Portugal.

Atualmente, a freguesia que junta desde 2013 Camarate, Unhos e Apelação é uma das 19 da Área Metropolitana de Lisboa que permanecem em estado de calamidade até 31 de julho, em cinco municípios.

Fátima Silva, moradora no bairro de Camarate, falou à reportagem da Lusa enquanto esperava para ir levantar dinheiro ao multibanco. Contou que nos últimos 15 dias, em que a zona já estava abrangida pelas medidas mais restritivas em relação ao resto do continente português, as coisas “até têm estado melhor”, concordando com o fecho do comércio às 20:00.

“Têm fechado mais cedo porque havia certos estabelecimentos que tinham muita gente à porta, agora não”, comentou a moradora, salientando estar satisfeita com o facto de o Governo ter alargado no tempo a situação de calamidade.

Fátima Silva explicou que “fechar as lojas às oito da noite foi o melhor que fizeram”, lamentando haver pessoas que “não têm cuidado nenhum” e que ainda não cumprem as medidas de distanciamento.

“Eu só saio de casa quando é preciso mesmo, e de resto é casa-trabalho, trabalho-casa”, frisou.

Também Hélder Conceição referiu que pouco sai – normalmente é só quando precisa de ir ao supermercado.

“Pelo que tenho visto na televisão tem andado complicado [os casos de covid-19], sobretudo em bairros complicados, como a Quinta do Mocho e Quinta da Fonte [na mesma freguesia]”, disse, frisando que só anda por Camarate, não saindo para “mais lado nenhum”.

Hélder Conceição tem problemas respiratórios e cardíacos, e sabe que no seu caso se contrair o novo coronavírus não vai ser fácil. Agora anda sempre com máscara, desinfeta e lava as mãos várias vezes ao dia quando está em casa.

“Mudei um bocadinho, sou doente de risco. No meu caso, se tenho a infelicidade de apanhar este vírus vou desta para melhor”, afirmou, contando ainda que os poucos estabelecimentos comerciais que frequenta estão a seguir as recomendações da Direção-Geral de Saúde (DGS).

Dário Sousa gere uma barbearia há seis anos na rua principal de Camarate. Contou que o comércio “caiu um bocado por causa do problema da covid” e de todas as restrições, no entanto, considera que sentem mais os cafés e restaurantes. No seu caso, já encerrava antes das 20:00.

O barbeiro contou também que a adaptação às regras da DGS “foi simples”. Agora tem de “higienizar, passar o álcool, usar a máscara”, passando a haver limitação das pessoas dentro do local – “o normal”, disse, enquanto cortava o cabelo a um cliente.

Do alto dos seus 84 anos, e apesar de morar no Bairro de Santiago, e não no centro de Camarate, Renato Portela escolheu ir até à freguesia do concelho de Loures para cortar o cabelo, por “estar habituado e por ser bem servido”.

“A última vez foi em fevereiro, salvo erro. Depois aconteceu esta coisa da covid e deixei de vir cá”, contou.

Apesar admitir ter medo do vírus, também está a começar a ter dores nas costas “por estar sentado tanto tempo”. Como vai fazer 85 anos, considera que é mais problemático, mas desde o início da pandemia usou sempre máscara — tem várias -, além de viseiras.

Já Joaquim Batista, que se encontrava com as duas cadelas sentado num banco no largo da igreja à conversa com outros moradores, confessou que “só há coisa de 15, 20 dias é que começou a usar a máscara”.

“Não usava mas agora comecei a usar”, afirmou, avançando que agora as pessoas “em todo o lado estão preocupadas” com os números de casos na área metropolitana e nas 19 freguesias mais afetadas.

“Estejam onde estiverem, há sempre preocupação com isto. Alguns têm cuidado e seguem as indicações, mas nem todos têm, o problema é esse, algumas têm cuidados, outras não. Aqui até os estabelecimentos também cumprem o horário, tem-se cumprido e vê-se muito menos gente na rua ao final do dia”, explicou.

Rita Martins, que trabalha com o irmão na Taverna Ramiro referiu que os últimos tempos “têm sido complicados”, alertando para o facto de também os moradores “não ajudarem”, já que se queixam do barulho que as pessoas fazem no exterior, mesmo depois das portas fechadas.

“Tenho menos gente, as pessoas estão com medo”, afirmou, lembrando que agora no interior do restaurante só podem estar cinco pessoas e por isso optaram por ter também uma pequena esplanada exterior.

Também Sofia, dona “há mais de 20 anos” de um café numa das ruas da Apelação, contou que vai ganhando para as despesas “só para ir aguentando”, já que se estivesse fechada e em casa “não ganhava mesmo nada”.

“Já houve tempos muito melhores, estava muito melhor até isto começar, mas é assim, nota-se que as pessoas estão mais assustadas, as pessoas mais idosas, que são quem mais frequenta o café”, explicou.

Sobre o cumprimento das regras, nomeadamente quanto aos ajuntamentos, já que nesta freguesia só são permitidos de cinco pessoas, não tem tido problemas: “Eu não deixo estar muita gente, começo a dizer ‘vamos lá dispersar’ e eles obedecem”.

RCP // ROC

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