Da Baixa ao Castelo: há carteiristas em cada esquina

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Zeng e os dois amigos foram avisados antes de voarem de Hong Kong. Na Europa iriam ser o “petisco” de uma “praga” que não se descola dos grupos de turistas orientais. E assim foi. Em Barcelona e Paris tentaram roubar-lhes as mochilas, mas aperceberam-se a tempo das mãos ágeis de carteiristas. Não tiveram a mesma sorte em Lisboa. Quando Zeng reparou que tinha o fecho da mala aberto já um casal fugia, junto ao Quartel do Carmo, fintando magotes de pessoas. Só que os dois carteiristas estavam a ser seguidos há muito por uma brigada à paisana da PSP na manhã desta segunda-feira. Um dos agentes tinha-se escondido no interior de um restaurante e apercebeu-se dos movimentos velozes desta dupla, já com algum cadastro. Em poucos segundos apanharam-nos, para espanto das vítimas e das dezenas de turistas de máquinas fotográficas e mapas na mão.

Apesar do sucesso da operação policial, ou talvez por causa disso, os três chineses torceram o nariz quando os agentes os aconselharam a fazer queixa-crime. “Já temos o nosso dinheiro e temos um avião para apanhar ainda hoje”, argumentaram. Só à conta de alguma persuasão — a equipa mostrou a identificação várias vezes — é que os turistas aceitaram ir à esquadra da rua da Palma. Os dois suspeitos, que tentaram livrar-se da carteira mal foram agarrados, ficaram detidos, poucas semanas depois de terem sido absolvidos de um crime semelhante.

Durante dois dias, o Expresso acompanhou as equipas de investigação criminal da PSP que combatem este fenómeno na zona histórica de Lisboa. Em média, são apresentadas 20 queixas por dia, mas o número representa apenas uma pequena parte dos furtos, já que muitos turistas preferem não ir à esquadra. Para a PSP, o fenómeno deveria ser combatido com medidas de coação mais gravosas e até a possibilidade de expulsão do país para estrangeiros reincidentes neste crime.

“LÍNGUA DE VACA”, “FRADINHA”E “MALCHEIROSO”

Nessa mesma manhã, ainda antes da detenção no Carmo, as atenções estavam viradas para um trio de portugueses da velha guarda — o “Língua de Vaca”, o “Malcheiroso” e a “Fradinha” — que atuam nas esquinas da Baixa, algures entre as ruas Augusta e da Madalena, mas também no interior do apinhado elétrico 28.

Para que os suspeitos não desconfiem, os agentes são obrigados a entrar de rompante em cafés, lojas de roupa ou velhas retrosarias. A primeira reação dos donos é de susto, mas calam-se quando veem o cartão da polícia. E muitas vezes ajudam os agentes escondidos, de cócoras, atrás de um balcão ou de uma mesa. “Eles estão ali à esquerda, perto de um grupo de turistas…”, vai relatando a gerente, colocada estrategicamente à porta do estabelecimento. Outros, preferem os comentários contundentes: “Quando os apanho dou-lhes uns carolos. Mas não serve de nada.” Uma coisa é certa: os comerciantes conhecem os carteiristas de ginjeira e muitas vezes são eles a fonte das autoridades.

Só que a lei informal das ruas obriga a cuidados redobrados. Há pedintes que informam os carteiristas da passagem das equipas à paisana. Uma mensagem por telemóvel pode afugentar os grupos que se multiplicam entre a Costa do Castelo, a Sé, o Chiado, a Baixa ou o Rossio. “Chegam a fotografar-nos e a partilhar as imagens entre eles”, conta um dos agentes que sabe que, muitas vezes, é reconhecido pelos suspeitos. Não é por acaso que as equipas têm sempre algumas caras novas, para evitar que as operações possam ir por água abaixo. Mas a presença dos mais experientes é essencial para subir e descer vielas esconsas, entrar em elevadores apinhados ou percorrer avenidas sem GPS.

O trio de portugueses é revistado à saída do 28, depois de um agente perceber que a mulher (irmã de outras duas carteiristas) tentava pôr a mão no interior da mala de uma turista. “Pergunte aí se alguém ficou sem carteira”, pede o PSP ao guarda-freio. No minuto seguinte, os turistas revistam as suas mochilas. Mas, desta vez, fora alarme falso.

Nas Portas do Sol, já na terça-feira de manhã, um casal de carteiristas romenos sobe e desce a escadaria para Alfama. “Estamos a segui-los toda a manhã. Já tentaram ‘comer’ dois turistas, mas a coisa não lhes correu bem.” Por ser dia de Feira da Ladra, a moldura humana é mais compacta e a vigilância complica-se. Rapidamente se apercebem de algo errado, quando dão de caras com uma agente que parecem reconhecer. E decidem apanhar um táxi para casa, assumindo a derrota.

PENSÕES BARATAS 
DA ALMIRANTE REIS

Com o boom do turismo, os carteiristas multiplicaram-se e alteraram o modus operandi: dos elétricos e do metro passaram para toda a zona histórica, e chegaram a Belém e ao Parque das Nações. De acordo com fonte do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), regressaram a Portugal os carteiristas da Roménia (e, em menor número, de outros países do Leste europeu) que por cá estiveram antes da crise. Haverá atualmente centenas de pessoas a atuar em todo o país, com destaque para Lisboa, divididas em vários clãs. Cada um é uma família, literalmente: marido, mulher, pais, avós, primos, namorados, filhos.

Mudaram os nomes e os rostos, mas não a estrutura, altamente organizada e especializada. São redes itinerantes — ou Grupos Móveis de Crime Organizado (GMCO), como lhes chama a Europol — que se movem pela Europa Ocidental ao ritmo do turismo. Vivem por temporadas em pensões (dois ou três por quarto, nunca mais de dez na mesma residencial), maioritariamente na Almirante Reis. As raparigas mais novas dedicam-se aos furtos de carteiras, e também de lojas. As mais velhas à mendicidade e roubos em supermercados. A maioria dos homens fica à espera do saque em cafés ou organiza-se para assaltos a casas. O material roubado é depois escoado para o país de origem — na Roménia, alimentam as cidades de Craiova e Ploiesti.

A itinerância do crime salta à vista pelas medidas cautelares por “carteirismo” que a maioria (60%) traz de outros países, sobretudo Itália e Espanha. Quando somam detenções mudam-se — é o hit and run. Muitos alteram também a identidade — acumulam várias — com recurso à falsificação de documentos, e há registo de outros crimes, como exploração de prostituição, tráfico humano ou mendicidade forçada. Cada uma das ocorrências está a ser georreferenciada pelo SEF (Projeto Lumina), para que até ao fim do ano seja possível visualizar a estrutura nacional do fenómeno.

Fim do turno da manhã de terça-feira. A brigada de investigação criminal regressa à esquadra com uma sensação agridoce. Estiveram quase a deter o casal de romenos, que há poucos dias tinha sido apanhado com €585. Só não foi preso porque a polícia não encontrou os donos da carteira. “Deram-nos luta, mas amanhã vão cair. Ai vão, vão”, garante um dos agentes.

Este artigo foi publicado originalmente no Expresso

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