Fissuras e parafusos soltos na Ponte 25 de Abril

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Foram encontradas fissuras numa zona estrutural da Ponte 25 de Abril, que podem afetar a segurança.

Esta foi uma das conclusões do relatório que o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) entregou ao Governo em fevereiro, divulgado esta quinta-feira pela revista Visão.

O documento diz que, sem medidas urgentes, poderá ser necessário restringir o tráfego de pesados e de comboios de mercadorias.

Após ter sido revelado este relatório, o executivo de António Costa anunciou esta quarta-feira a realização de obras na Ponte 25 de Abril, cujo orçamento é de 18 milhões de euros.

Secretário de Estado das Infraestruturas aguarda há seis meses pela resposta das Finanças para a libertação de 20 milhões de euros para as obras

O documento agora publicado deixa um sério aviso ao Executivo de António Costa sobre o estado da estrutura que liga as duas margens do rio Tejo. Diz que, se não forem tomadas medidas urgentes, poderá ser necessário restringir o tráfego de pesados e de comboios de mercadorias.

De acordo com a Visão, o secretário de Estado das Infraestruturas, Guilherme W. d’ Oliveira Martins, aguarda há seis meses pela resposta do ministro das Finanças, Mário Centeno, ao seu pedido de libertação de verbas para as obras, ou seja, 20 milhões de euros.

A publicação conta ainda que, com base num modelo matemático “extremamente complexo”, o LNEC refere em relatório o que pode acontecer caso não se faça uma intervenção e as fissuras nas estruturas continuem a aumentar. Os técnicos não afastam a possibilidade de um dia haver mesmo o risco de “colapso”. Mas para já, a ponte é segura, referem os peritos.

Um parafuso em aço com cerca de 60 centímetros e três quilos quase ia caindo em cima de um casal de turistas e de um português

Além do que diz o LNEC, a Visão teve acesso a outros documentos, nomeadamente do Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ), que nos últimos relatórios mensais deixa avisos ao Governo sobre a degradação da estrutura, por onde passam todos os os dias uma média de 160 mil automóveis. “As fissuras das treliças transversais aumentam em número e em comprimento”, refere o documento.

CDS quer ouvir ministro das Infraestruturas e o LNEC no Parlamento

O ISQ admite até parafusos soltos, nomeadamente no sistema de fixação das travessas dos caminhos-de-ferro. A Visão relata um caso insólito e grave relacionado com esta anomalia na ponte. Um parafuso em aço com cerca de 60 centímetros e três quilos quase ia caindo em cima de um casal de turistas e de um português que passeavam numa zona mesmo por baixo da ponte.

As reações a este relatório até agora desconhecido não se fizeram esperar, com os partidos a exigirem respostas do Governo.

Assunção Cristas, do CDS, já fez saber em declarações à Visão que vai chamar “com carácter de urgência” à Assembleia da República o ministro do Planeamento, Pedro Marques, e o LNEC. Hélder Amaral, deputado do CDS, espera ver o relatório do LNEC, uma vez que considera que “o Parlamento tem de saber” o que está a acontecer na Ponte 25 de Abril, sobretudo quando estão em risco a vida de pessoas e bens.

Em declarações aos jornalistas, na Assembleia da República, o deputado disse que é necessário esclarecer, da parte do Governo, se este é o único relatório que existe e que tipo de obras são necessárias.

É preciso esclarecer tudo até para que “não exista qualquer tipo de alarme” entre a população, justificou.

O relatório que alerta para fissuras na estrutura foi enviado há cerca de um mês para o Ministério das Finanças, de acordo com a Visão.

O gabinete do ministro do Planeamento e das Infraestruturas disse à Lusa que Pedro Marques ainda aguarda conhecimento oficial do pedido, mas “está sempre disponível” para esclarecer os deputados.

Bloco de Esquerda questiona Governo

“Faremos um requerimento para ter acesso ao dito relatório e vamos questionar o Governo sobre as razões de ter mantido em situação de inatividade as medidas urgentes que uma situação destas poderia requerer“, afirmou à revista o deputado do Bloco de Esquerda, Heitor de Sousa. Perante o que foi relevado no artigo, o bloquista critica o período que mediou a “ocorrência destes episódios [sintomáticos do desgaste da ponte] e o desbloqueamento destas verbas” por parte de Mário Centeno.

Heitor de Sousa considera fundamental perceber “desde quando é que o Governo sabe disto, desde quando é que as obras se justificavam e por que é que a decisão demorou tanto tempo”.

Deputado do PS desconhecia relatório do LNEC

Quem também desconhece o relatório do LNEC que graves riscos de segurança na Ponte 25 de Abril é o deputado do PS, André Pinotes Batista. Desconhece o documento, mas defende o ministro do Planeamento e das Infraestruturas. À Visão, alega que se Pedro Marques soubesse de algum perigo para a vida dos passageiros rodoviários e ferroviários “nenhum relatório ficaria na gaveta”.

Nenhum político quer ter uma morte na sua consciência“, considerou André Pinotes Batista. Acredita que a demora dever-se-á à “complexidade destes processos” que precisam de ser “articulados entre o Ministério do Planeamento e das Infraestruturas, as Infraestruturas de Portugal (IP) e o LNEC”.

“Parece que só quando a Visão disse que ia revelar os relatórios é que apareceu a verba para as obras”

A editora executiva da Visão, Catarina Guerreiro, autora do artigo que revela os pormenores do relatório do LNEC, conta que não obtiveram resposta do Governo após as tentativas da revista de esclarecimento junto ao Ministério das Finanças. “Parece que só quando a Visão disse que ia revelar os relatórios é que apareceu a verba para as obras” na Ponte 25 de Abril, referiu a jornalista à SIC Notícias.

Trabalhos na ponte vão demorar dois anos e estão orçados em 18 milhões de euros

A Ponte 25 de abril vai ser alvo durante dois anos de trabalhos manutenção, orçados em 18 milhões de euros, conforme anunciou a Infraestruturas de Portugal (IP), que lança ainda este mês o concurso público internacional para adjudicação da obra.

Em comunicado, a empresa refere que “vai lançar, no decorrer deste mês, uma empreitada de trabalhos de reparação e conservação da Ponte 25 de Abril”, que liga as duas margens do Rio Tejo (Almada e Lisboa), “com um preço base de 18 milhões de euros e prazo de execução de dois anos”.

Questionada pela Lusa, fonte da empresa explicou que o prazo de dois anos para a realização das obras só se inicia após a adjudicação da empreitada, na sequência do concurso que será lançado no decorrer deste mês.

“Esta empreitada tem por objetivo a realização de um conjunto de trabalhos identificados no âmbito das atividades de inspeção e de monitorização do comportamento estrutural da Ponte 25 de Abril, promovidas em contínuo pela IP, e executadas pelo ISQ — Instituto de Soldadura e Qualidade e Laboratório Nacional de Engenharia Civil, respetivamente”, explica a nota.

Os trabalhos de manutenção realizar-se-ão durante a noite e aos fins de semana.

“À semelhança das intervenções de manutenção anteriores realizadas na Ponte 25 de Abril, e de modo a minimizar eventuais impactos na normal circulação rodoviária e ferroviária, os trabalhos serão executados em períodos de menor fluxo de tráfego, nomeadamente em período noturno e em dias não úteis”, indica a Infraestruturas de Portugal.

As intervenções previstas, segundo a IP, incidem sobre elementos metálicos da ponte suspensa e em elementos de betão armado pré-esforçado do viaduto de acesso norte.

Genericamente, trata-se da execução de trabalhos de construção metálica, soldadura, reposição localizada da proteção anticorrosiva, substituição de elementos não estruturais, limpeza, tratamento e pintura pontual de superfícies de betão

O projeto de execução de suporte a esta empreitada contempla as soluções técnicas de reparação definidas pela empresa projetista americana Parsons e pela empresa projetista portuguesa TalProjecto, cujo desenvolvimento foi acompanhado e validado ao longo das suas diversas fases pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

“De referir que a Parsons é a empresa projetista que detém os direitos de autor do projeto de construção da Ponte que data da década de 60, e que é simultaneamente a autora do projeto de instalação do caminho-de-ferro, alargamento do tabuleiro rodoviário e de beneficiação geral da Ponte 25 de Abril, concretizada na década de 90”, refere a Infraestruturas de Portugal.

A Talprojecto é uma empresa projetista portuguesa na área das estruturas metálicas.

Este artigo foi publicado originalmente no Diário de Notícias

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