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Instituições culturais apostam no ‘online’ e solução veio para ficar

A pandemia de covid-19 obrigou instituições culturais do país a descobrirem ‘refúgio’ na Internet, para continuarem a oferecer uma programação artística e, mesmo desejando contacto com o público e o regresso aos espaços, a solução digital veio para ficar.

Seja durante os dois períodos de porta fechada, devido aos confinamentos, ou pelas lotações reduzidas e restrições de eventos, as instituições culturais, de museus a editoras e promotoras de espetáculos, foram forçadas a encarar a Internet como alternativa.

Se, para algumas ouvidas pela Lusa, o período foi apenas de aceleração de um plano que já vinha de trás, para outros o período foi de “descoberta” e de complemento ao que pode ser a experiência presencial, mesmo que nenhuma das instituições que responderam considere que o digital possa substituir o ‘real’.

O diretor artístico e administrador da Culturgest Mark Deputter explica à Lusa que, para esta instituição, “a presença física do espectador é crucial na experiência estética e na comunicação entre artista e público”.

“Não há teatro sem espectador, não é possível sentir o impacto de um quadro ou uma escultura sem confrontá-los no espaço”, atira.

A estratégia digital passou, assim, pela “oferta de obras artísticas especificamente criadas para o meio digital”, como o ‘site’ “Arquivo de Destruição”, de Pedro Lagoa, criações musicais de Adriana Sá, João Bento ou Ricardo Toscano, o espetáculo de teatro “100% Lisboa”, da Rimini Protokoll, o bailado “Cesena”, de Anne Teresa de Keersmaeker, ou a peça “Virgens Suicidas”, de John Romão.

A estas experiências juntam-se conferências ‘online’, que trouxeram à plateia da Culturgest nomes como Silvia Federici ou Steve Paxton, além do investimento na equipa e nas plataformas digitais para garantir “maior e melhor exposição dos novos conteúdos multimédia”, com material pensado para os próximos anos.

“Assistimos à descentralização do acesso através do ‘online’, com visualizações de todo o país e de todo o mundo”, garante ainda, em declarações à Lusa.

Na Casa da Música, no Porto, o diretor artístico, António Jorge Pacheco, relata à Lusa um tempo de “desafio técnico”, para as equipas de produção, e “desafio artístico”, para os músicos dos agrupamentos residentes.

Com um grande acervo de gravações, mas não pensadas para serem divulgadas, a capacidade de adaptação permitiu dar “uma resposta muito rápida”, e esta traduz-se na produção de “novos programas para transmissão”, nos próximos tempos.

“A experiência tem sido muito positiva não só pelo número de visualizações e pela dimensão internacional, (…) mas sobretudo porque possibilitou um olhar crítico sobre os concertos e oficinas feitos no passado”, comenta à Lusa.

Sabendo que “nada substitui a experiência da música ao vivo”, pelo “fenómeno acústico” em sala, a pandemia trouxe, ainda assim, um outro peso à componente digital, que pode “vir a ter um peso e uma presença maior nas programações após a pandemia”, adiantou.

A Fundação de Serralves deu nome à aposta no digital que decorreu após o primeiro confinamento, com a “Serralves Online Experience” (SOLE), que “tem vindo a ser ampliada” com “novas ofertas que diversifiquem a experiência”, explicou à Lusa o diretor de recursos e projetos especiais, Rui Costa.

De filmes a conferências, entrevistas, exposições, visitas pelo património ou sugestões culturais, passando por conteúdos educativos para a comunidade escolar, a SOLE alberga a resposta pandémica na Internet da fundação.

“Criam-se oportunidades que futuramente serão úteis e enriquecedoras, de complementarização da experiência de visitas presenciais”, garante, além de permitir um acesso geograficamente mais democrático.

“Amplamente reforçada”, a oferta digital da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, é transversal, entre a música, o Museu, o Centro de Arte Moderna e o serviço educativo, com divulgação de coleções e exposições temporárias, mas também de novos conteúdos, de filmes a visitas virtuais a 360 graus, entre outros.

Na música, foram transmitidos concertos de forma gratuita, chegando, revela a instituição, “a um público muitíssimo mais alargado, tanto a nível nacional como internacional”.

“Entre junho de 2020 e março de 2021, foram realizadas 17 transmissões em direto, que contaram com mais de 1 milhão de visualizações (25% das quais no estrangeiro) e uma reação muito positiva”, notam os serviços da fundação, em resposta à Lusa.

O programa de concertos continua no novo confinamento, às terças e sextas-feiras, numa aposta que “já era uma vertente assumida pela fundação”, recebendo “um impulso” com a pandemia, que se pretende que tenha continuidade.

Depois de um primeiro confinamento “de descoberta”, o Mira Fórum, no Porto, com três galerias, uma delas dedicada a artes performativas, apresenta programação de quarta-feira a domingo, o que dá “muito trabalho”, mas é algo que “veio para ficar”, a par do trabalho presencial na rua de Miraflor.

Também no Porto, o Mexe – Encontro Internacional de Arte e Comunidade ‘fugiu’ à pandemia em 2020 porque, ao ser bianual, só estava marcado para 2021, agendado para setembro.

Criado “com muito diálogo com as comunidades locais”, e numa lógica de facilitar o acesso a todo o tipo de públicos, o diretor artístico, Hugo Cruz, admite à Lusa que há “desafios enormes” para esta edição, com o virtual como “opção válida e interessante”, mas que continua a deixar de parte “o público com mais dificuldades de acesso”, sobretudo se “descentrar a realidade de Lisboa e Porto”, uma questão que, recorda, tem sido muito discutida no que toca às escolas e aulas por via telemática.

“O ‘online’ não é uma resposta para a maioria da população. É válida, mas continua um acesso a um público que já era um público do circuito cultural. (…) Vamos ter propostas ‘online’, mas muito poucas, duas ou três. Não vamos abrir mão do trabalho presencial”, garante à Lusa.

Haverá “uma reinvenção” para a nova edição, desde logo porque a programação ‘online’ será pensada de raiz, mas também pela forma como vai prosseguir o trabalho em conjunto com as comunidades abordadas, com o objetivo de “reconquistar a intimidade”. “Acho que vamos inventar isso”, afirma.

Já o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, diz à Lusa que a presença digital da instituição “permitiu construir uma relação de proximidade com o público alvo” e serviu “como elemento catalisador da visita presencial” e como um complemento para a experiência.

Este museu começou com o programa “A arte é uma ponte que nos une”, com 60 vídeos sobre obras do acervo, seguindo para documentários e outros conteúdos. Mobilizou também a atuação do serviço educativo, com “um conjunto de itinerários e jogos para crianças, famílias, jovens e adultos”, com 10 vídeos em torno de peças “normalmente guardadas nas reservas”, entre outros materiais, lançados até final do ano.

A editora discográfica Lovers & Lollypops, também produtora de eventos, lançou um Clube como resposta ao período pandémico, mas a ideia “já existia, não é de agora”.

A oscilar entre 30 a 50 subscritores, em média, mesmo com registo números superiores no arranque, ainda em 2020, o Clube terá “várias vidas” tanto no digital como após o desconfinamento, dizem os responsáveis à Lusa.

Além de permitir que pessoas assistam aos concertos que organizam “de forma mais barata”, como já aconteceu no ano passado, com eventos presenciais com acessos para membros do clube via Internet, também facilita o acesso das novas criações dos seus artistas, “ao maior número de pessoas”.

O projeto encaixa igualmente na abertura de um espaço próprio, no centro do Porto, associando um clube físico ao digital, um “modelo híbrido que acaba por ser bastante interessante”, por permitir a pessoas fora da cidade aceder aos eventos.

Maria Inês Marques, cofundadora da plataforma UMA, que junta uma oferta artística multidisciplinar ‘online’, criada em plena pandemia, lembra que muitas instituições “já estavam a antecipar” uma coexistência entre os dois mundos, real e virtual.

“Já estavam no digital até pela influência do ‘streaming’, hoje em dia”, diz à Lusa, recordando “tudo o que eram as criações digitais, como a Filarmónica de Berlim, que já vendia assinaturas digitais”.

“Acho que 2020 veio acelerar o processo de transição e coexistência com o digital, que já vinha sendo uma realidade e necessidade”, garante Maria Inês Marques.

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