Pelos caminhos dos ovos-moles de Aveiro

Detectamos que usa um AdBlock

Utilizamos anúncios para ajudar a manter o nosso site, considere desativar o AdBlock (bloqueador de anúncios) no nosso site para poder ver os conteúdos.

Os nossos anúncios não são intrusivos!

São feitos com gemas, açúcar, água e folhas de hóstia, segundo uma receita com 500 anos. É certo que os ovos‑moles dispensam grandes apresentações, mas podemos sempre fazer‑lhes uma visita, numa altura em que a sua confraria prepara uma candidatura a Património Imaterial da Humanidade.

E que em algumas cozinhas de Aveiro eles têm sido reinventados em licores, gelados e recheios para doces como tripas e cupcakes.

A receita tem mais de 500 anos e nasceu com a chegada ao continente do açúcar produzido na ilha da Madeira, parte dele distribuída pela coroa portuguesa aos conventos como esmola. Entre eles, ao Convento de Jesus de Aveiro, que o utilizava na farmácia ou como suplemento alimentar para os doentes.

A disponibilidade de açúcar e o excedente de gemas deram origem a mais esta história da doçaria conventual portuguesa. É mais uma alquimia de água e açúcar fervidos em tacho de cobre até ao ponto de pérola, juntando‑se depois as gemas, mexendo‑se durante 45 minuto sem parar, até que esta massa vai a um alguidar de barro vidrado para arrefecer.

Uma fina folha de hóstia é moldada com formas de mar – conchas, búzios, barricas, barcos ‑ e depois é recheada com esses ovos que viram a luz do dia no Convento de Jesus, agora Museu de Aveiro.

Os ovos‑moles de Aveiro foram o primeiro produto de confeitaria portuguesa a receber denominação de Indicação Geográfica Protegida e a sua confraria está, agora, a preparar uma candidatura a Património Imaterial da Humanidade.

E na cidade da ria esta receita de cinco séculos continua viva, tanto na sua confeção tradicional, como noutras utilizações do seu sabor e textura. E é ainda possível, para começar, aprender a fazê‑los em casa, frequentando o workshop de ovos‑moles orientado por Sílvia Monteiro, na AVEIRO EMOTIONS. Sílvia conta a história do doce conventual e ensina a prepará‑lo em casa.

«O segredo é a paciência», diz Sílvia. Além de explicar o que há para saber sobre o assunto, a Aveiro Emotions produz licor de ovos‑moles que é servido em copos de hóstia. A massa de ovos‑moles e uma certa quantidade de álcool envolvem‑se numa garrafa com rolha de cortiça, numa fórmula que foi aperfeiçoada em parceria com a Universidade de Aveiro.

Neste caminho de gemas doces, também há frescura. O gelado artesanal de ovos‑moles foi, aliás, o motor de arranque da GELADOS DE PORTUGAL, uma loja com vista para a ria. Rui Almeida, engenheiro informático, ligado ao fabrico de doces, experimentou em casa, a família gostou, e o gelado do doce conventual nasceu.

A oferta expandiu‑se para um cupcake de ovos‑moles com merengue queimado no topo, para um crepe com bola de gelado com ovos‑moles e fios de ovos. A taça Aveiro tem uma bola de gelado de ovos‑moles, bola de gelado de mirtilo com framboesa e chocolate, e chantili.

A experiência correu bem. «Queríamos ter gelados, mas não gelados iguais aos outros», revela Rui Almeida. E eles estão em mais de cem pontos de venda pelo país, com sabores portugueses como ovos‑moles, leite creme, requeijão e banana da Madeira.

Já a PASTELARIA LATINA, no centro da cidade, mantém‑se fiel a uma receita que a escassez da guerra quase extinguiu. Trata‑se dos ovos‑moles pretos, cobertos com hóstia e banhados em chocolate. Já se faziam há cerca de cem anos. Com a Segunda Guerra Mundial, o cacau era um luxo e esses ovos deixaram de ser produzidos», revela Francisco Silva, dono da Latina e presidente da Associação e Ovos‑Moles de Aveiro.

Há uns anos voltaram à sua pastelaria que tem as miniaturas tradicionais e ainda o bolo morgado do Buçaco, receita carmelita que utiliza ovos‑moles.

No TÊ ZERO, Paulo Pinheiro faz tripas com ovos‑moles. Massa mole recheada com o doce conventual acompanhado com gelado de lima ou com extras que estão na ementa, como chantili ou manteiga de amendoim. O dono do restaurante pequenino é especialista em tripas doces e salgadas e não facilita. Mexe a massa à mão e dobra a tripa com ovos‑moles no espaço que abriu em abril e que decorou com motivos alusivos a Aveiro de uma ponta a outra.

E para terminar impõe‑se alguma ortodoxia. Na padaria e confeitaria RIA PÃO, a receita é intocável e apenas os feitios variam. Tigelas, barquinhos, cornucópias, castanhas, charutos, beijinhos polvilhados de açúcar ou de coco, papos-de-anjo. Tudo de ovos‑moles. «Tudo feito aqui, não compramos nada fora», diz Alberto Marques, dono do espaço.

BARRICAS PINTADAS À MÃO
É num armazém na Rua dos Ervideiros, nos arredores de Aveiro, que são feitas as barricas dos ovos‑moles, recipientes que guardam o doce. É o único sítio do mundo onde pedaços de madeira de choupo se transformam nas barricas pela arte de Abílio Ferreira e são pintadas pelas mãos do seu primo Joaquim, ambos na casa dos 70 anos.

Os direitos do fabrico das barricas pintadas com cenários de Aveiro mudaram entretanto de mãos, mas a oficina continua a laborar. Os primos ensinam tudo o que sabem para que a tradição não esmoreça.

MOMA, O MONUMENTO AO DOCE
Uma barrica, uma concha, um búzio e moldes que dão origem às formas que envolvem o doce conventual são os elementos que compõem o Monumento aos Ovos‑Moles de Aveiro (MOMA), inaugurado a 1 de outubro de 2016, junto aos canais da ria.

A obra foi desenhada pelo artista plástico Albano Martins que se inspirou no conceito de modelo e molde dos ovos mais famosos de Portugal. Que evidencia as suas origens. Valter Hugo Mãe escreveu sobre a peça. «Aveiro homenageia o seu aparelho cardíaco, que é ponto de partida para quem fica e motivo para quem quer voltar. A obra de Albano Martins torna‑se um absoluto lugar de encontro.» Palavras de poeta.

Este artigo foi publicado originalmente na Evassões

Qual a sua opinião?