O Wi-Fi tornou-se tão habitual que raramente pensamos no que acontece entre carregar num vídeo no telemóvel e a imagem começar a aparecer no ecrã. Não há qualquer cabo entre o dispositivo e o router, mas, em poucos instantes, milhões de dados atravessam a casa através de ondas de rádio.
É precisamente essa liberdade que também explica muitos dos problemas de velocidade.
Uma ligação por cabo percorre um caminho físico relativamente protegido. No Wi-Fi, os dados têm de disputar espaço com paredes, outros routers, televisores, dispositivos inteligentes e até determinados aparelhos domésticos. E é possível ter Internet muito rápida a chegar a casa, mas receber apenas uma pequena parte dessa velocidade no quarto do outro lado da habitação.
Perceber como funciona o Wi-Fi ajuda, por isso, a perceber porque fica lento — e muitas vezes permite resolver o problema sem mudar de operador ou contratar um pacote de Internet mais rápido.
O Wi-Fi não é a própria Internet
Esta é provavelmente a distinção mais importante.
A Internet chega a casa através da ligação disponibilizada pelo operador, seja fibra, cabo ou outra tecnologia. O router recebe essa ligação e cria uma rede local à qual podem ser ligados computadores, televisores, telemóveis e outros equipamentos.
O Wi-Fi é apenas uma das formas utilizadas para fazer essa ligação entre o dispositivo e o router.
Quando abre uma página no telemóvel, por exemplo, o pedido é primeiro enviado através de Wi-Fi até ao router. O router encaminha-o para a Internet e recebe a resposta, que volta a fazer o percurso inverso.
Por isso, existem duas ligações diferentes que podem limitar a velocidade:
Internet → router → dispositivo
Se a ligação do operador estiver lenta, um Wi-Fi perfeito não consegue torná-la mais rápida. Da mesma forma, pode ter uma ligação de fibra extremamente rápida e obter maus resultados se o sinal entre o router e o computador for fraco.
A Ofcom, entidade reguladora das comunicações no Reino Unido, chama precisamente a atenção para esta diferença: melhorar o Wi-Fi não permite ultrapassar a velocidade máxima da própria ligação de banda larga.
Como funciona o Wi-Fi dentro de casa
O router transforma informação digital em sinais de rádio que são transmitidos através de antenas.
O telemóvel, computador ou televisão recebe esses sinais, interpreta os dados e também transmite informação de volta para o router.
Não existe, portanto, uma espécie de “feixe” invisível dirigido exclusivamente ao seu computador. O espaço radioelétrico é partilhado.
E essa característica tem consequências.
Os dispositivos que utilizam o mesmo canal precisam de coordenar as transmissões para reduzir a possibilidade de interferirem uns com os outros. Em termos simplificados, um equipamento verifica se o canal está disponível antes de transmitir. Quanto mais congestionado estiver esse espaço, mais tempo os diferentes dispositivos podem ter de esperar.
A documentação técnica da Cisco explica que redes Wi-Fi no mesmo canal partilham a capacidade disponível, mesmo quando pertencem a utilizadores ou redes diferentes.
É uma das razões pelas quais um apartamento pode ter um desempenho perfeitamente aceitável durante a manhã e tornar-se mais lento ao final do dia, quando dezenas de redes próximas estão mais ativas.
2,4 GHz, 5 GHz e 6 GHz: porque existem várias frequências?
Os routers modernos podem utilizar diferentes bandas de frequência. As mais conhecidas são 2,4 GHz e 5 GHz, às quais se juntou mais recentemente a banda dos 6 GHz em equipamentos compatíveis.
Não existe uma frequência que seja sempre melhor.
A banda de 2,4 GHz consegue normalmente alcançar distâncias maiores e atravessar obstáculos com mais facilidade. Em contrapartida, oferece menos capacidade e tende a estar mais congestionada.
A banda de 5 GHz permite geralmente velocidades superiores e dispõe de mais canais, mas perde intensidade mais rapidamente à medida que aumenta a distância ou surgem paredes pelo caminho.
Nos equipamentos compatíveis com 6 GHz, é possível obter ainda mais capacidade e encontrar um espectro menos congestionado, mas o alcance é normalmente inferior e tanto o router como o dispositivo têm de suportar esta tecnologia.
A própria Microsoft recomenda considerar estas diferenças: 2,4 GHz oferece maior alcance, enquanto 5 GHz privilegia o desempenho; 6 GHz pode proporcionar ligações particularmente rápidas quando o dispositivo está relativamente próximo do router.
Na prática, pode acontecer algo aparentemente estranho: junto ao router, 5 GHz apresenta uma velocidade muito superior, enquanto numa divisão distante a ligação de 2,4 GHz acaba por ser mais estável.
Porque é que as paredes fazem tanta diferença?
As ondas de rádio perdem intensidade à medida que percorrem distância e atravessam materiais.
Uma porta não tem necessariamente o mesmo impacto que uma parede grossa. Betão, tijolo, estruturas metálicas e determinados tipos de vidro podem reduzir significativamente a intensidade do sinal.
Metal e grandes volumes de água também podem afetar a propagação.
É por isso que esconder o router dentro de um móvel, colocá-lo atrás da televisão ou instalá-lo num extremo da casa pode ser uma má ideia.
A Microsoft recomenda uma localização central, afastada do chão, de paredes e de objetos metálicos. A Ofcom também aconselha evitar obstáculos como radiadores e aquários, precisamente porque determinados materiais dificultam a propagação do sinal.
Uma pequena mudança na localização do router pode, em determinadas casas, fazer mais diferença do que trocar imediatamente de equipamento.
Ter todas as barras de Wi-Fi não significa ter Internet rápida
O símbolo do Wi-Fi apresentado no telemóvel pode induzir em erro.
As barras indicam essencialmente a qualidade do sinal entre o dispositivo e o ponto de acesso. Não dizem que velocidade existe entre o router e a Internet.
Pode estar sentado ao lado do router, com sinal máximo, e continuar com uma ligação lenta se existir um problema no serviço do operador.
Também pode acontecer o contrário: a ligação de fibra está a funcionar corretamente, mas o Wi-Fi é o elemento limitador.
Há uma forma relativamente simples de distinguir os dois problemas.
Faça um teste de velocidade perto do router através de Wi-Fi. Se possível, faça depois outro num computador ligado diretamente ao router por cabo Ethernet.
Se por cabo obtiver, por exemplo, 900 Mbps e por Wi-Fi apenas 150 Mbps, a ligação do operador provavelmente não é o principal problema. A diferença está algures na rede sem fios, no dispositivo utilizado ou nas respetivas configurações.
Os vizinhos também podem tornar o seu Wi-Fi mais lento
Numa moradia isolada podem existir apenas algumas redes Wi-Fi próximas. Num prédio com dezenas de apartamentos, a situação é muito diferente.
Ao abrir a lista de redes disponíveis num telemóvel é frequente aparecerem dez, vinte ou ainda mais redes.
Todas precisam de espaço no espectro.
O problema é particularmente evidente nos 2,4 GHz, onde existem menos canais sem sobreposição. A Microsoft recomenda, nesta banda, os canais 1, 6 ou 11 para reduzir problemas de sobreposição, embora muitos routers modernos façam automaticamente a seleção do canal.
Isto explica porque mudar de canal pode, em determinadas situações, melhorar bastante o desempenho sem alterar absolutamente mais nada na rede.
Também explica porque copiar simplesmente as configurações de Wi-Fi de outra pessoa nem sempre é uma boa solução. O melhor canal numa casa pode ser precisamente o pior na casa ao lado.
Eletrodomésticos e outros dispositivos também podem interferir
Nem tudo o que utiliza as mesmas frequências é um router.
A banda dos 2,4 GHz é utilizada por diferentes equipamentos e tecnologias. Micro-ondas, alguns telefones sem fios e outros dispositivos podem gerar interferências.
Bluetooth também opera nesta zona do espectro.
Isto não significa que seja necessário desligar metade dos aparelhos da casa. Os equipamentos modernos estão preparados para coexistir, mas em ambientes já congestionados todas estas fontes podem contribuir para piorar a situação.
É mais uma razão para não colocar o router encostado a outros equipamentos eletrónicos ou escondido no meio de cabos e aparelhos.
Quanto mais longe estiver do router, menor tende a ser a velocidade
Uma das características interessantes do Wi-Fi é a capacidade de adaptar a comunicação às condições do sinal.
Quando a ligação está forte e limpa, router e dispositivo podem utilizar métodos de transmissão mais rápidos.
Quando o sinal piora, é necessário privilegiar a fiabilidade.
É semelhante a duas pessoas a conversar. Numa sala silenciosa conseguem falar rapidamente. Se estiverem muito afastadas num espaço cheio de ruído, precisam de falar mais devagar, repetir algumas palavras e confirmar se a outra pessoa percebeu.
No Wi-Fi acontece algo comparável.
Se determinados dados chegarem corrompidos ou não forem corretamente recebidos, podem ter de ser retransmitidos. A Cisco documenta precisamente contadores de retransmissões, erros e pacotes descartados utilizados pelos pontos de acesso para identificar este tipo de problemas.
O resultado para o utilizador é simples: menor velocidade e, em situações mais graves, pequenas pausas ou quebras de ligação.
Muitos dispositivos ligados tornam o Wi-Fi mais lento?
Podem tornar, mas não necessariamente pelo simples facto de estarem ligados.
Uma lâmpada inteligente praticamente inativa não consome os mesmos recursos que uma televisão a transmitir vídeo em 4K.
O problema surge sobretudo quando vários equipamentos estão simultaneamente a transferir dados.
Imagine uma casa onde alguém está numa videochamada, outra pessoa vê uma série, uma consola descarrega um jogo e dois telemóveis fazem cópias de segurança para a cloud.
Todos esses equipamentos estão a partilhar a ligação à Internet e, em muitos casos, o mesmo espaço radioelétrico.
Routers recentes, especialmente os que utilizam gerações como Wi-Fi 6 e posteriores, dispõem de tecnologias desenvolvidas para gerir de forma mais eficiente ambientes com muitos dispositivos. Isso não significa, contudo, que tenham capacidade ilimitada.
Um router antigo pode começar a revelar as suas limitações muito antes de uma ligação de fibra moderna atingir o máximo que consegue fornecer.
Um repetidor Wi-Fi resolve sempre o problema?
Não.
Um repetidor pode ser útil quando existe uma zona da casa onde o sinal é fraco, mas a localização do equipamento é fundamental.
Colocá-lo precisamente no local onde quase já não existe sinal significa que o repetidor também terá dificuldade em comunicar com o router.
Existe ainda outra questão: alguns repetidores utilizam o próprio Wi-Fi simultaneamente para receber e retransmitir os dados, o que pode reduzir o desempenho disponível.
Para casas maiores, sistemas mesh com vários pontos de acesso podem proporcionar uma cobertura mais consistente. Quando existe possibilidade de interligar esses pontos por cabo Ethernet, o resultado pode ser ainda melhor, porque a comunicação entre os diferentes pontos deixa de depender exclusivamente do mesmo meio sem fios utilizado pelos equipamentos.
O que fazer quando o Wi-Fi está lento
Antes de comprar um router novo ou aumentar a velocidade contratada, vale a pena fazer alguns testes simples.
Comece perto do router e faça um teste de velocidade. Repita-o depois nas divisões onde normalmente existem problemas.
Se a velocidade cair drasticamente à medida que se afasta, o problema é provavelmente de cobertura.
Se estiver lenta mesmo junto ao router, teste outro dispositivo. Um computador ou telemóvel antigo pode não suportar as mesmas tecnologias e velocidades que equipamentos mais recentes.
Se possível, faça também um teste por cabo.
Depois disso, experimente algumas alterações simples: colocar o router numa posição mais central e elevada, afastá-lo de objetos metálicos e equipamentos eletrónicos, testar a banda dos 5 GHz quando estiver relativamente perto do router e verificar se o equipamento está a utilizar canais muito congestionados.
Também é aconselhável manter o firmware do router atualizado e reiniciá-lo caso esteja a apresentar um comportamento anormal. Reiniciar constantemente o equipamento não deve, porém, ser encarado como solução permanente para uma rede mal dimensionada.
Mais velocidade contratada nem sempre significa melhor Wi-Fi
Este é provavelmente o erro mais caro.
Imagine que tem uma ligação de 500 Mbps, mas apenas consegue obter 80 Mbps no quarto devido a várias paredes e a um sinal fraco.
Passar para um pacote de 1 Gbps dificilmente resolverá esse problema. A Internet até ao router ficou mais rápida; o troço que já estava limitado continua igual.
Nesse caso, faria mais sentido melhorar a cobertura da rede.
O inverso também acontece. Se vários dispositivos conseguem comunicar rapidamente com o router, mas todos ficam lentos quando utilizam simultaneamente a Internet, pode fazer sentido verificar se a velocidade contratada é suficiente.
Separar estes dois problemas evita gastar dinheiro no equipamento errado ou num pacote que não traz qualquer diferença perceptível.
A melhor rede Wi-Fi é aquela que chega bem onde realmente precisa
Não existe uma configuração universal capaz de oferecer a velocidade máxima em todos os cantos de qualquer casa.
Uma pequena habitação pode funcionar perfeitamente com o router fornecido pelo operador. Uma casa grande, com vários pisos e paredes grossas, pode precisar de vários pontos de acesso. Num apartamento rodeado por dezenas de redes, a gestão das frequências e dos canais pode ser mais importante do que aumentar a potência do sinal.
A principal conclusão é simples: quando o Wi-Fi fica lento, não significa automaticamente que “a Internet está má”.
Pode ser distância, obstáculos, interferência, congestionamento, uma frequência inadequada, limitações do próprio dispositivo ou simplesmente demasiados dados a circular ao mesmo tempo.
Identificar onde está a limitação é o passo que faz realmente a diferença. Muitas vezes, uma mudança de localização do router, a utilização da banda correta ou uma melhor distribuição dos pontos de acesso consegue melhorar a experiência sem alterar sequer o serviço de Internet contratado.






