Portugal deixou de ter falta de trabalho e passou a ter falta de trabalhadores

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Ouvimos falar muito sobre o desemprego em Portugal. As queixas são frequentes e partem, geralmente, da parte dos jovens recém formados que sentem, na pele, a dificuldade de integrar o mercado de trabalho nacional.

O reverso da medalha, neste caso, começa, no entanto, a ser outra realidade. Ao mesmo tempo que os jovens vão emigrando, procurando oportunidades nas suas áreas de formação, o país vai ficando com cada vez mais vagas que ninguém quer ocupar.

Esta realidade sente-se um pouco por todo o mercado de trabalho mas principalmente nas áreas de trabalho vinculadas ao turismo. Neste momento, existem inúmeras empresas a oferecer trabalho, sem que exista uma resposta igualmente intensa por parte de trabalhadores qualificados.

Tanto o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP, também conhecido como centro de emprego) como os meios menos convencionais (como as plataformas digitais, fóruns e redes sociais) têm vindo, gradualmente, a divulgar diversas ofertas de emprego, sendo estas recusadas com frequência.

Debruçamo-nos hoje sobre esta questão para tentar compreender as razões que levam Portugal a passar de um país com falta de trabalho para um país com falta de trabalhadores.

1. A dualidade da experiência

É um ciclo vicioso muito difícil de quebrar. As empresas querem funcionários com experiência. Os desempregados querem a experiência que lhes permitirá ser contratados. E esta é uma das razões pelas quais os trabalhos continuam pendentes, sem que sejam aceites, deixando muitos contratadores de mãos a abanar no momento de preencherem as suas vagas de emprego.

Existe, hoje em dia, entre os recém licenciados, a sensação clara da precariedade da educação superior, que é falha na atribuição de momentos onde se conquiste experiência efetiva e que seja acreditada junto das entidades contratuais.

A ilusão do emprego é uma das caraterísticas de muitas das vagas presentes no IEFP e nas redes sociais, uma vez que as qualificações pedidas não estão de acordo com a realidade dos desempregados nacionais.

2. Sazonalidade

Muitos dos locais que sentem a dificuldade de contratação vivem das chamadas “épocas altas”. É o caso, por exemplo, da costa litoral, onde as empresas procuram, na época do verão, trabalhadores para as suas vagas, dispensando os mesmos quando o afluxo de turistas diminui.

A falta de pessoal qualificado nestas regiões prende-se justamente com a necessidade de encontrar uma maior estabilidade de vida. Assim, a mão-de-obra, que poderia ser integrada nestas vagas de emprego, sente a necessidade de tentar a sorte nas cidades grandes ou fora do país, não estando disponível para aceitar contratos a termo que sabem que não poderão gerar efetividade.

3. Trabalho precário e call center

Entre os anúncios de empregos que surgem – principalmente na internet – mais de dois terços referem-se a trabalhos de call center, vendas door-to-door ou a trabalhos na área comercial que dependem das comissões para tornarem viável a vivência de uma pessoa.

Isto gera um descontentamento geral entre a comunidade de desempregados que, na sua legítima procura por trabalho, acaba por se ver atraída, inclusivamente, para entrevistas de emprego fraudulentas, que em nada correspondem à vaga para a qual se candidataram.

Esta situação criou também, na geração atual, uma capacidade avaliativa que a torna mais seletiva no momento de enviar a sua candidatura para as vagas disponibilizadas.

Este ciclo de desempregados que não encontram trabalho e de empregadores que não encontram funcionários levam à situação que referimos e que prejudica o global da economia nacional. Portugal é hoje um país onde existe, em simultâneo, muita procura de emprego, muito trabalho e muita falta de trabalhadores.

Texto de Ana Santos

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