Portugueses desenvolvem vacina para derrotar todas as gripes

Detectamos que usa um AdBlock

Utilizamos anúncios para ajudar a manter o nosso site, considere desativar o AdBlock (bloqueador de anúncios) no nosso site para poder ver os conteúdos.

Os nossos anúncios não são intrusivos!

Criar uma vacina universal, que mate todos os vírus da gripe, é o sonho de qualquer investigador de epidemiologia, porque a doença atinge 5% a 15% da população do Hemisfério Norte, ou seja, mais do que os vírus zika e ébola juntos, segundo a Organização Mundial de Saúde.

Todos os anos há milhões de internamentos por causa da gripe e cerca de 500 mil vítimas mortais, principalmente idosos e portadores de doenças crónicas como a asma, diabetes ou doenças renais. Por isso, a Comissão Europeia está a financiar o projeto Edufluvac, lançado por um consórcio de instituições de vários países, incluindo Portugal, para desenvolver uma vacina que possa proporcionar uma proteção mais prolongada — cinco anos em vez de um ano — e mais ampla contra o vírus influenza.

Mutações no Vírus

A vacinação anual é a principal forma de prevenção e de proteção contra potenciais pandemias como a que se registou em 2009 com a gripe A, provocada pelo vírus H1N1. Mas o problema é que “devido à elevada propensão do vírus influenza para mutações, a composição das vacinas da gripe sazonal necessita de ser atualizada e novas vacinas têm de ser formuladas, produzidas e administradas anualmente, ou mesmo com maior frequência em caso de pandemias”, explica Paula Alves ao Expresso.

A vacina da gripe convencional tem duas grandes proteínas, a hemaglutinina e a neuraminidase. “Com as mutações do vírus estas proteínas vão sendo alteradas e os nossos anticorpos não reconhecem o novo vírus que aparece todos os anos”, acrescenta a presidente do Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (iBET), o centro de investigação português envolvido no projeto.

A investigadora sublinha que “o desenvolvimento de uma vacina dita universal capaz de induzir resposta imunitária contra diferentes estirpes do vírus influenza tornou-se uma prioridade a nível mundial”. O objetivo é proteger de forma mais eficaz não só os mais vulneráveis — crianças, idosos e portadores de doenças crónicas — como toda a população “contra a gripe sazonal que todos os anos nos afeta, especialmente no inverno, e que ainda possa oferecer um grau de proteção elevado contra potenciais pandemias”.

Mas não há apenas vantagens para a saúde das populações. O projeto Edufluvac “vai permitir também a criação de uma plataforma economicamente viável para a produção em larga escala de uma vacina da gripe, em especial em caso de pandemia”, antecipa Paula Alves. Esta plataforma “levará a uma significativa redução dos custos de produção, tornando a vacina mais acessível a milhões de pessoas nos países em desenvolvimento”.

É difícil garantir 100% de proteção com a nova Vacina

“Colocamos sempre universal entre aspas porque na virologia é difícil afirmar que vamos desenvolver uma vacina universal”, esclarece António Roldão, doutorado em biologia de sistemas (modelos matemáticos aplicados à biotecnologia). O principal investigador do iBET envolvido no projeto explica porquê: “Não sabemos tudo o que se vai passar no futuro, há pandemias que não estão previstas e podem surgir quando se dá a transferência de um vírus dos animais para os seres humanos, como aconteceu com a gripe das aves”. É óbvio que o objetivo final da ciência “é conseguir uma vacina universal, mas não podemos garantir a 100%, no projeto Edufluvac, que conseguimos lá chegar”.

Por isso Paula Alves também lhe chama “vacina multivalente”. A presidente do iBET adianta que a vacina em desenvolvimento “protege contra cinco tipos de vírus da gripe”. E é segura “porque não tem material genético (ADN e RNA, ácido ribonucleico) mas apenas a casca do vírus, o que significa que não há nenhuma probabilidade de se replicar, ao contrário das vacinas convencionais, que não podem ser dadas a doentes imunocomprometidos, isto é, com o sistema imunitário fraco”. Este processo é semelhante ao que é usado nas vacinas da hepatite B ou do papiloma vírus humano.

Apostar nas partículas semelhantes a vírus

O projeto Edufluvac pretende assim criar novas vacinas sazonais baseadas em partículas semelhantes a vírus, as chamadas VLP (virus like particles), estruturas compostas por uma ou várias proteínas exteriores da casca ou envelope do vírus, que o mimetizam mas não apresentam ADN ou RNA, sendo por isso inócuas e boas candidatas a vacinas (ver infografia).

“As diferentes VLP que planeamos fabricar para o projeto Edufluvac são produzidas no iBET usando células de inseto e baculovírus — vírus que apenas infetam células de inseto —, um conceito que apesar de já ter duas décadas de existência, apenas nos anos mais recentes tem tido a sua aplicação prática na indústria”, esclarece Paula Alves, doutorada em engenharia química.

A vacina já foi testada em ratinhos de laboratório e agora, em simultâneo, está a ser testada em furões e em primatas na Holanda. “Os resultados relativos aos testes em ratinhos são animadores”, revela o investigador António Roldão, “mas ainda não sabemos os resultados dos testes em primatas e furões”. Os furões foram escolhidos “porque na parte respiratória mimetizam o organismo humano”.

Este artigo foi publicado originalmente no Expresso

Recomendado pelo Informa+

Qual a sua opinião?