Durante muito tempo, falar de um robô com duas pernas, dois braços e capacidade para perceber o que lhe pedimos parecia pertencer ao mesmo mundo dos carros voadores. Vídeos impressionantes apareciam de vez em quando, quase sempre em ambientes controlados, e a sensação era a mesma: interessante, mas ainda muito longe da vida real.
Isso está a começar a mudar.
Wang Xingxing, fundador e presidente executivo da chinesa Unitree Robotics, acredita que os robôs humanoides podem chegar ao seu verdadeiro “momento ChatGPT” dentro de dois a dez anos. Não significa que vão começar a conversar como um chatbot. A comparação é bastante mais interessante: seria o momento em que estas máquinas deixam de ser essencialmente demonstrações tecnológicas e passam a conseguir resolver tarefas novas sem terem sido programadas especificamente para cada uma delas.
E essa diferença é enorme.
O que seria, afinal, o “momento ChatGPT” dos robôs?
Quando o ChatGPT apareceu para o grande público no final de 2022, a inteligência artificial já existia há décadas. O que mudou foi a facilidade com que qualquer pessoa passou a conseguir utilizá-la.
Bastava escrever uma pergunta.
Segundo Wang Xingxing, algo semelhante poderá acontecer na robótica quando for possível colocar um humanoide num ambiente que nunca viu e simplesmente dizer-lhe o que queremos que faça.
O objetivo apontado pelo responsável da Unitree é bastante ambicioso: um robô capaz de completar aproximadamente 80% das tarefas em 80% dos ambientes desconhecidos através de instruções simples.
Imagina colocar um robô pela primeira vez numa cozinha e dizer:
“Guarda estas compras.”
Para uma pessoa, é uma frase banal. Para um robô, é uma pequena avalanche de problemas.
Tem de perceber quais são as compras, distinguir alimentos, embalagens e objetos, encontrar armários, descobrir como se abrem, perceber onde cada produto deve ficar, agarrar objetos de tamanhos diferentes e evitar partir alguma coisa pelo caminho.
E tudo isto numa cozinha que nunca viu.
É aqui que começa a perceber-se por que razão construir um robô verdadeiramente útil é muito mais difícil do que fazê-lo correr ou dar cambalhotas.
O grande problema já não é fazê-los andar
Os vídeos atuais conseguem facilmente transmitir a impressão de que os humanoides estão praticamente prontos.
Correm, saltam, dançam, transportam caixas e alguns executam movimentos que seriam complicados até para muitas pessoas.
Mas existe uma diferença enorme entre fazer uma demonstração previamente preparada e conseguir trabalhar autonomamente durante horas num espaço onde tudo pode mudar.
Wang Xingxing aponta precisamente a generalização como um dos grandes obstáculos atuais. Um robô treinado repetidamente para executar uma determinada tarefa num cenário fixo pode conseguir resultados excelentes. Basta mudar ligeiramente o objeto, a posição ou o espaço à sua volta para a taxa de sucesso cair bastante.
Há ainda aquele último detalhe que nós fazemos quase sem pensar: sentir.
Quando pegamos num copo, os dedos ajustam automaticamente a força. Se o objeto começa a escorregar, corrigimos imediatamente. Um robô precisa de combinar câmaras, sensores, motores, informação tátil e inteligência artificial para chegar ao mesmo resultado.
É uma das razões pelas quais uma mão robótica suficientemente boa continua a ser um enorme desafio de engenharia. A Goldman Sachs destacou recentemente precisamente a dificuldade de reproduzir a complexidade e precisão dos movimentos da mão humana.
Entretanto, os humanoides já começaram a trabalhar
Talvez a parte mais interessante desta história seja perceber que já não estamos apenas a falar de protótipos fechados em laboratórios.
A BMW tem vindo a testar robôs humanoides da Figure nas suas operações. Depois das experiências com o Figure 02, a fabricante automóvel anunciou em junho de 2026 novos trabalhos com o Figure 03 na fábrica de Spartanburg, nos Estados Unidos, incluindo tarefas de logística e sequenciamento de peças.
A Hyundai também tem planos bastante concretos. O grupo pretende começar a introduzir o Atlas, desenvolvido pela Boston Dynamics, na fábrica HMGMA, na Geórgia, em 2028. A primeira tarefa prevista é a organização e sequenciamento de peças, podendo posteriormente avançar para operações de montagem.
Mais impressionante ainda é a escala que está a ser preparada: a Hyundai anunciou planos para criar capacidade de produção de até 30 mil robôs por ano em 2028.
Ou seja, a pergunta já não é simplesmente se existirão humanoides nas fábricas.
Eles estão a chegar.
A verdadeira dúvida é saber até onde conseguirão ir.
E estão a ficar surpreendentemente mais baratos
Há outro detalhe que ajuda a perceber por que motivo existe tanto entusiasmo em torno desta tecnologia: o preço.
O Unitree G1, um humanoide com cerca de 1,32 metros e aproximadamente 35 quilos, é atualmente anunciado pela própria fabricante a partir de 13.500 dólares. A bateria oferece cerca de duas horas de funcionamento, segundo as especificações oficiais.
A loja da empresa apresenta até modelos mais baratos, como o R1, com preços a partir de 4.900 dólares.
Isto não significa que estamos prestes a substituir o aspirador lá de casa por um humanoide.
Muito pelo contrário.
A própria Unitree deixa um aviso bastante claro na página do G1: a indústria dos robôs humanoides continua numa fase inicial e os compradores devem conhecer bem as limitações atuais da tecnologia.
Ainda assim, a evolução dos preços merece atenção.
Há poucos anos, um robô humanoide avançado podia facilmente implicar custos de dezenas ou centenas de milhares de euros.
A Goldman Sachs já tinha identificado uma queda muito significativa nos custos dos componentes, estimando em 2024 que o custo de fabrico de determinados humanoides tinha descido de uma faixa de 50 mil a 250 mil dólares para aproximadamente 30 mil a 150 mil dólares.
Quanto mais baratos forem motores, sensores, baterias e sistemas de processamento, mais fácil será experimentar estas máquinas fora dos laboratórios.
Por que insistimos em fazer robôs com forma humana?
É uma pergunta perfeitamente legítima.
Se queremos uma máquina para transportar caixas, talvez colocar-lhe duas pernas não seja a solução mais eficiente. Rodas são mais simples, mais baratas e gastam menos energia.
O problema é que praticamente todo o nosso mundo foi construído para o corpo humano.
As portas têm uma determinada altura. As escadas foram feitas para pernas. Os puxadores foram pensados para mãos. As ferramentas, cozinhas, carros, corredores e fábricas foram desenhados à nossa escala.
Um robô com uma anatomia semelhante à nossa pode, pelo menos em teoria, entrar nesses espaços sem ser necessário reconstruí-los.
É uma vantagem enorme.
Em vez de adaptar uma fábrica inteira a uma máquina, adapta-se a máquina à fábrica que já existe.
A inteligência artificial está a dar aos robôs algo que lhes faltava
O hardware é apenas metade da história.
O outro grande salto está a acontecer no software.
Empresas como a NVIDIA estão a desenvolver aquilo a que chamam “Physical AI”, modelos capazes de ajudar máquinas a observar o mundo físico, interpretar uma situação e decidir como agir.
Em março de 2026, a NVIDIA apresentou novas ferramentas e modelos destinados precisamente a acelerar o desenvolvimento de robôs capazes de trabalhar em ambientes reais, incluindo humanoides.
A ideia é aproximar o funcionamento destas máquinas da forma como os modelos de inteligência artificial aprenderam linguagem.
Em vez de programar manualmente milhares de regras do género “se o objeto estiver cinco centímetros para a esquerda, move o braço desta forma”, os investigadores querem robôs capazes de aprender através de enormes quantidades de dados, simulações e experiência.
É aqui que poderá surgir o tal “momento ChatGPT”.
Não necessariamente quando existir o robô mais rápido ou mais forte, mas quando existir um robô capaz de aprender e adaptar-se suficientemente bem para ser realmente útil.
O mercado pode tornar-se gigantesco — mas ninguém sabe exatamente quanto
As previsões financeiras também ajudam a perceber a corrida que está em curso.
Em 2024, a Goldman Sachs estimava que o mercado mundial de robôs humanoides poderia atingir 38 mil milhões de dólares em 2035, com cerca de 1,4 milhões de unidades enviadas nesse horizonte.
Estimativas mais recentes são ainda mais ambiciosas. Uma análise do J.P. Morgan publicada em agosto de 2026 refere projeções que apontam para cerca de 300 mil milhões de dólares anuais em vendas de humanoides em 2035, dentro de um mercado global de robótica potencialmente muito maior.
A enorme diferença entre previsões é, por si só, reveladora.
Estamos perante uma tecnologia com grande potencial, mas ainda com muitas incógnitas.
É fácil imaginar milhões de robôs a trabalhar em fábricas. É bastante mais difícil prever quando serão suficientemente fiáveis, seguros e baratos para entrar massivamente nas casas.
Provavelmente vão começar pelos trabalhos que ninguém quer fazer
Antes de vermos um humanoide a dobrar roupa enquanto fazemos o jantar, é provável que estas máquinas conquistem primeiro ambientes muito mais previsíveis.
Fábricas, armazéns e centros logísticos são candidatos óbvios.
Depois poderão surgir tarefas perigosas ou fisicamente exigentes: zonas industriais, manutenção de instalações, manipulação de produtos perigosos ou operações em locais onde enviar uma pessoa representa um risco.
A Goldman Sachs considera precisamente os trabalhos perigosos, sujos e repetitivos entre as áreas onde a utilização de humanoides poderá fazer mais sentido inicialmente.
E há outra questão importante: falta de trabalhadores.
Em países com populações envelhecidas, estas máquinas poderão acabar por preencher funções para as quais simplesmente não existem pessoas suficientes.
Isso não elimina a inevitável discussão sobre empregos que poderão desaparecer ou transformar-se. Mas mostra que o cenário provavelmente será bastante mais complexo do que a ideia simples de “robôs vão roubar empregos”.
Daqui a dez anos podemos olhar para 2026 de outra maneira
É sempre perigoso fazer previsões tecnológicas.
Há invenções que parecem estar permanentemente a “cinco anos de distância”. Outras chegam muito mais depressa do que quase todos esperavam.
Os robôs humanoides encontram-se algures nesse território.
Continuam desajeitados em muitas tarefas que uma criança executaria sem dificuldade. A autonomia é limitada, a fiabilidade ainda não é suficiente e os ambientes imprevisíveis continuam a ser um enorme problema.
Ao mesmo tempo, já existem modelos à venda por valores que há poucos anos pareceriam absurdamente baixos, fabricantes automóveis estão a testá-los em linhas de produção e algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo estão a investir na inteligência artificial necessária para lhes dar autonomia.
Por isso, talvez a previsão de dois a dez anos esteja errada.
Pode demorar vinte.
Ou o salto pode acontecer muito antes.
Mas uma coisa começa a parecer cada vez mais evidente: os robôs humanoides estão finalmente a passar da fase em que apenas nos impressionam para a fase em que precisam de provar que conseguem ser úteis.
E se conseguirem, o verdadeiro momento surpreendente poderá não ser vermos um robô a correr ou a dar uma cambalhota.
Será o dia em que alguém disser “arruma isto, por favor” — e a máquina simplesmente perceber o que tem de fazer.




