“Serotonina”, novo romance de Michel Houellebecq, chega hoje às livrarias

O novo romance do escritor francês Michel Houellebecq, “Serotonina”, radiografia da decadência da sociedade ocidental e antevisão de um futuro pouco perfeito, chega hoje às livrarias portuguesas, com a chancela da Alfaguara.

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Vencedor do Prémio de Literatura Europeia, “Serotonina”, publicado em França em janeiro deste ano, é um “romance lírico, irónico, cruel, cirúrgico e profético”, e “uma radiografia do futuro que nos espera, atravessada pelo olhar sempre provocador de Michel Houellebecq”, descreve a editora.

“Serotonina” narra, num tom introspetivo e pela voz do protagonista, a vida algo decadente de um funcionário do Ministério da Agricultura, de 46 anos, chamado Florent-Claude Labrouste, que detesta o seu primeiro nome.

Logo nas primeiras páginas, o narrador apresenta-se e dá conta da sua opinião quanto ao nome que os pais lhe escolheram: “Florent é demasiado suave, demasiado próximo do feminino Florence, num sentido quase andrógino. Não corresponde de todo ao meu rosto de traços vigorosos, sob determinados ângulos brutais, que foi frequentemente (por algumas mulheres, pelo menos) considerado viril, e nunca, mas mesmo nunca, o rosto de um larilas botticelliano”.

“Quanto a Claude, nem vale a pena falarmos disso, faz-me imediatamente pensar nas Claudettes, e vem-me logo à cabeça a imagem pavorosa de um vídeo ‘vintage’ do Claude François a ser passado em ‘loop’ num serão de bichas velhas, assim que ouço o nome Claude”, acrescenta.

Feita esta apresentação, está o caminho aberto para aquilo que se revela ser uma personagem homofóbica e racista, machista e centrada na sua própria virilidade, que encara as mulheres como objetos sexuais, tratando-as não poucas vezes de forma desrespeitosa.

É, a par disso, um homem algo amargo, que, apesar de financeiramente desafogado, vive de mal com o que o rodeia, como fica claro, numa descrição que faz da cidade de Paris e do bairro de Beaugrenelle, onde viveu e que “detestava”.

“Repugnava-me a cidade infestada de burgueses eco-responsáveis, talvez eu próprio fosse algo burguês mas não era eco-responsável, andava de todo-o-terreno a gasóleo — talvez não tivesse feito grande coisa da vida mas ao menos tinha contribuído para destruir o planeta — e sabotava sistematicamente o programa de triagem seletivo posto em prática pelo condomínio do prédio, lançando as garrafas de vinho vazias nos contentores reservados aos papéis e às embalagens, os dejetos orgânicos no contentor do vidro”.

Sobre este comportamento, Florent-Claude faz ainda questão de esclarecer que não só se “orgulhava” da sua “falta de civismo”, como se “vingava mesquinhamente do custo indecente do arrendamento e das contas”.

Traçado que está o perfil do narrador, Michel Houellebecq conduz o leitor pelo dia a dia deste homem, que divide o apartamento na periferia de Paris com Yuzu, namorada japonesa, muitos anos mais jovem, de quem diz sistematicamente mal e a quem trata com grosseria, afirmando desde o início que o seu plano é abandoná-la.

Cínico, profundamente desesperançado e intimamente só, tudo lhe parece insuportável: a França está à beira do precipício, a Europa ameaça ruir, a sua vida é um beco sem saída.

A descoberta de uns vídeos comprometedores daquela namorada que ele planeava há muito abandonar, leva-o a despedir-se de muito mais: deixa o emprego, a namorada e a casa, e aluga um quarto de hotel.

Dedica então os dias a divagar e deambular pelos bares, restaurantes e lojas da cidade, até que descobre Captorix, um antidepressivo que liberta serotonina e lhe devolve a possibilidade de aguentar o dia-a-dia, mas lhe rouba aquilo que poucos homens estariam dispostos a perder.

“Os efeitos secundários indesejáveis mais frequentemente observados do Captorix são as náuseas, a diminuição da libido e a impotência. Nunca tinha tido náuseas”, diz.

Florent-Claude aproveita a rutura radical para rememorar o passado: as aspirações e ideais de jovem agrónomo; as relações amorosas, de fim desastroso; a nostalgia de um amor perdido; e o reencontro com um velho amigo aristocrata, que o ensina a manusear uma espingarda.

Entre passado e futuro, é-lhe forçoso contemplar, com uma feroz acidez, um mundo sem bondade, desumanizado, atingido por mutações irreversíveis,descreve a editora, acrescentando que “Serotonina” é um “romance-profecia de um futuro pouco perfeito”, que reafirma Houellebecq como “um cronista impiedoso da decadência da sociedade ocidental, um escritor indómito e incómodo”.

Esta ideia sobressalta também das críticas literárias ao romance, com o El País a afirmar que Houellebecq “tem um olfato indiscutível para captar aquilo a que os alemães chamam o ‘zeitgeist’: o espírito dos tempos”, o El Mundo a considerar este “um romance demolidor, apesar de, na sua escuridão, cintilar uma esperança”, o Der Spiegel a convidar o leitor a entrar “na escuridão da terra de amanhã” e o Le Soir a afirmar que “‘Serotonina’ é um grande espelho colocado diante do nosso mundo: e o seu reflexo dá medo”.

Michel Houellebecq nasceu na ilha de Reunião em 1956. Escreveu e publicou vários romances e obras de poesia. Entre os romances, contam-se “Extensão do domínio da luta”, “Lanzarote”, “Partículas elementares”, “Plataforma” e “Submissão”, que vai ser adaptado a uma série televisiva, como foi anunciado no início deste ano.

Com o livro “A possibilidade de uma ilha”, editado em 2005, Michel Houellebecq venceu o Prémio Interallié e foi finalista do Prémio Goncourt, galardão que acabaria por lhe ser atribuído pelo romance seguinte, “O mapa e o território”, editado em 2010.

Os seus livros estão traduzidos em mais de quarenta línguas.

Em 2019, ano em que viu editado “Serotonina”, foi-lhe atribuída a Legião de Honra.


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