Sete pescadores salvos após quatro dias à deriva na Madeira

“O barco adornou, entrou numa vaga do mar, a água entrou no barco e ele afundou. Foi muito de repente, não tivemos tempo de acionar os alertas. O mar estava muito forte. Em 43 anos de experiência, nunca me aconteceu nada igual.”

É desta forma que o mestre Gregório recorda os momentos que levaram ao naufrágio do ‘Setemar’ e que deixou sete pescadores à deriva durante quatro dias e três noites ao largo da Madeira. Acabaram salvos, este sábado à tarde, quando já se antevia uma tragédia, depois de uma operação da Marinha e Força Aérea ter localizado a balsa que lhes permitiu sobreviver para contar a história.

“Tive medo de morrer, mas escapámos. Agora só quero ir para casa com a família”, admitiu o homem que trazia dois irmãos na mesma embarcação, poucos minutos depois de pôr o pé em terra firme. São todos do Caniçal e apesar da provação porque passaram diz que “após uns dias de descanso” estará “pronto para voltar ao mar”.

Os sete pescadores, entre os 23 e os 61 anos, que tinham zarpado ao final da tarde de terça-feira para a faina do atum, foram encontrados ao início da tarde de sábado por uma aeronave da Força Aérea que tinha sido mobilizada para as buscas. Rapidamente, dois navios da Marinha que estavam na mesma operação foram direcionados para o local, a 40 quilómetros do ponto onde tinham efetuado a última comunicação.

O alerta foi dado na sexta-feira, pelo armador da embarcação, que informou o comandante do porto do Funchal que o ‘Setemar’ não comunicava há dois dias. A Marinha enviou um patrulha-oceânico e uma lancha para a zona, mas perante a falta de resultados e o aumento da área de buscas, foi acionado um C295 da Força Aérea que estava em Porto Santo.

“Estamos bem e isso é que importa”, afirma o mestre Gregório, que sempre acreditou que iam ser salvos.

Escapou à provação por ter sofrido lesão no pé dias antes de embarcar para a faina

Fortunato era ontem um homem dividido. Por um lado estava preocupado com os amigos, sem saber o que tinha acontecido aos colegas de todos os dias; por outro, aliviado por ter escapado. Sofreu uma lesão num pé dias antes do embarque e teve de dizer “não” quando o ‘Setemar’ estava para zarpar, na terça-feira.

Este pescador parece atrair o infortúnio, apesar de lhe escapar sempre. Da primeira vez que Fortunato foi ao mar, o barco afundou e na segunda a embarcação ardeu. Desta vez, não embarcou e o barco acabou no fundo do mar.

PORMENORES

Três dias à deriva: Os seis tripulantes do pesqueiro ‘Luz do Sameiro’ estiveram desaparecidos três dias no mar, até serem localizados ao largo do Cabo Mondego, em novembro de 2011. O pesqueiro naufragou, saltaram para a balsa e aguardaram para serem resgatados. Estavam todos bem.

Em silêncio 19 horas: O pesqueiro ‘Parma’, com nove pescadores e um biólogo marinho, esteve 19 horas sem comunicar, em abril, o que motivou buscas no mar. Afinal, tinha-se partido o mastro de comunicações e o mestre decidira regressar a Peniche, onde chegaram todos bem.

Barco afunda em alto mar: Uma embarcação italiana resgatou os dez pescadores que seguiam num pesqueiro que se afundou em alto mar, em maio de 2010. À boleia da embarcação ‘Leticia-F’, de transporte de produtos químicos, regressaram a casa bem de saúde.

Resistiu 16 horas: Um pescador de 37 anos foi resgatado após 16 horas em alto mar e sem qualquer auxílio, em outubro de 2018. Era um dos tripulantes de uma traineira que se incendiou ao largo da ilha de São Jorge, nos Açores. Saltou ao mar com os outros dois tripulantes, que desapareceram.

Publicado originalmente em: Correio da Manhã

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