Sindicato dos Enfermeiros: “Os médicos são 14% dos funcionários e ganham 87% da massa salarial”

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Os enfermeiros entram esta terça-feira, 12 de Setembro, no seu segundo dia de greve sob a ameaça de marcação de faltas injustificadas. Em entrevista ao jornal i, José Correia Azevedo, presidente do Sindicato dos Enfermeiros (SE, afecto à UGT) garante que não vai desconvocar a greve e diz que, se o Governo insistir na marcação de faltas injustificadas, há novo protesto à vista.

O primeiro dia de greve dos enfermeiros saldou-se por vários protestos um pouco por todo o país, consultas adiadas, blocos operatórios fechados. E o início do segundo dia regista uma média de adesão à greve de 86%.

Sem números oficiais por parte do ministério da Saúde, apenas há os dos sindicatos que convocaram o protesto (o Sindicato dos Enfermeiros e o Sindicato Independente dos Profissionais de Enfermagem, afectos à UGT), e que apontam para adesões entre os 60% e os 100%. Números que, para José Correia de Azevedo, presidente do SE, são muito positivos.

Poderosíssimo lóbi dos médicos sorve todas as verbas

Em entrevista ao i, José Correia de Azevedo diz que um dos problemas centrais que condicionam a situação dos enfermeiros reside no excesso de influência que os médicos têm. Essa influência é traduzida em termos de representação nos organismo de poder (“o ministro da Saúde é médico, o secretário de Estado da Saúde é médico”, lembra), mas também em termos salariais. “Os médicos são 14% dos funcionários do ministério e ganham 87% da massa salarial total. Os enfermeiros são 33% e junto com os outros profissionais recebem os outros 13%. Ou seja, o “potentíssimo lóbi” dos médicos seca as verbas disponíveis.

O líder do sindicato dos enfermeiros nega que esteja a reclamar aumentos de 100%, como alega Adalberto Campos Fernandes, a quem acusa de estar “a fazer as coisas de forma muito desonesta”.

Ao contrário do que o Governo quer fazer crer, esta não é uma greve por causa dos enfermeiros parteiros, garante o sindicalista. “É uma luta geral, para que haja chefias e categorias próprias” na profissão, garante.

Os enfermeiros têm actualmente um salário base de 1.200 euros brutos (ganham menos do que nutricionistas, psicólogos, paramédicos) e, durante as negociações que teve com o Governo, o SEP propôs um aumento faseado da remuneração. Para 1.600 euros brutos em 2017, mais 200 euros para 2018 até que, em 2019, se alcançassem os 2.020 euros brutos.

O responsável garante ainda que não é verdade que esta proposta colocasse os enfermeiros a ganhar mais do que os médicos. “Nem de perto nem de longe. Um [médico] assistente começa com um vencimento de 2.746 euros, portanto os enfermeiros ficariam 720 euros abaixo dos médicos). O ministro não falou verdade e os números baralham as pessoas”, acusa.

Como acusa também o Governo de não falar verdade quando diz que não tem dinheiro. “Não há falta de verbas. Se fosse falta de verbas, o senhor ministro não tinha a lata de promover 200 médicos a consultores. Isso implica mensalmente mais do que o salário dos enfermeiros: cada médico consultor recebe perto de 1500 euros a mais”, garante.

SEP poderá passar de aliado do Governo ao protesto

O protesto foi agendado apenas pelos sindicatos afectos à UGT, com o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) a ficar de fora. José Correia de Azevedo lembra que este sindicato, o mais representativo, é afecto à CGTP e é “muito próximo” do PCP, que serve de suporte ao governo de António Costa.

O argumento do SEP para se demarcar da greve é que há um processo negocial em curso, mas José Correia de Azevedo diz que essas negociações não têm nada a ver para o caso. As negociações a que o sindicato da CGTP alude “são negociações que se aplicam a todos os trabalhadores do Estado”, sendo necessárias negociações específicas sobre a carreira de enfermagem, diz. E, numa alusão à dirigente da Frente Comum, onde o SEP está filiado, diz que “Ana Avoila percebe de hotelaria mas não percebe nada de enfermeiros nem da problemática da enfermagem”.

O SEP reúne-se esta terça-feira, 12 de Setembro, com o ministério da Saúde, uma reunião que foi preparada na segunda-feira pelo próprio primeiro-ministro que, segundo a Lusa, terá cancelado acções de campanha para o efeito.

Caso o Governo não satisfaça as suas reivindicações, este sindicato da CGTP, que acabou por ficar isolado no apoio ao Governo, ameaça avançar também para a luta e deixar António Costa e Adalberto Campos Fernandes isolado.

Fora das conversas está o SE, pelo menos para já. “Não queremos dialogar com surdos. A dialogar estivemos desde 20 de Julho, quando o ministro me disse de homem para homem, que as coisas se iam resolver. A retórica não nos levou a lado nenhum”, remata, na entrevista.

Este artigo foi publicado originalmente no Jornal de Negócios

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