Um kit que em duas horas identifica as bactérias resistentes

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Três médicos do Porto criaram a FASTinov, empresa que desenvolve um produto que irá permitir saber, de forma rápida, que antibióticos aplicar.

Quando recebe um doente com uma infeção grave, um serviço hospitalar precisa hoje de esperar dois dias para saber qual o antibiótico a aplicar. Três médicos do Porto apostam agora em desenvolver uma tecnologia que irá reduzir os chamados testes de suscetibilidade antimicrobiana a apenas duas horas, no máximo. O que permitirá um grande avanço no tratamento dos doentes, menos custos e, muito importante, a contenção das infeções nas unidades de saúde.

A FASTinov, uma empresa nascida no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis), já patenteou a metodologia (Flow Cytometry Antimicrobial Susceptibility Test) e recebeu um financiamento de 2,6 milhões de euros da Comissão Europeia, através do programa Horizonte 2020.

“O projeto nasceu há muitos anos com o meu doutoramento, foi crescendo e a certa altura percebemos que isto ia dar um produto. Fizemos uma patente e em 2013 constituímos a empresa para tentar concorrer a outro tipo de financiamento fora da área universitária e para podermos colocar o produto no mercado”, contou ao DN Cidália Pina Vaz, cofundadora e CEO da FASTinov. Acácio Rodrigues e Sofia Oliveira são os outros fundadores, todos do serviço de microbiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

“Trabalhamos na rotina hospitalar e percebemos que havia uma necessidade muito grande nesta área. No laboratório sinto que damos os resultados muito tarde, muito mais tarde do que a clínica precisa”, diz a médica, exemplificando que “nas situações mais graves, as septicemias ou infeções no sangue, demora-se no mínimo dois dias. Isto é em todos os laboratórios a nível mundial”.

Na prática, são precisos dois dias para dar aconselhamento a um clínico sobre qual o antibiótico que deve usar para tratar uma infeção grave. “Era uma necessidade alterar este tipo de metodologia. As existentes, apesar de automatizadas e com equipamentos, dependem do crescimento das bactérias, do estudo da capacidade de elas conseguirem crescer na presença do antibiótico ou não. As bactérias demoram algum tempo a crescer”, o que atrasa o processo.

Foi no trabalho diário que fazem nos laboratórios que os médicos perceberam que podia ser criada a nova solução. “Contactei com outros equipamentos e outras metodologias e tentei aplicá-las à microbiologia. Essa é a inovação, a metodologia que estamos a aplicar para fazer um teste de suscetibilidade faz que tenhamos os resultados em duas horas, em média”, diz Cidália Pina Vaz

Esta metodologia, a citometria, já existia mas não tinha sido aplicada à microbiologia. “Incubamos as células na mesma com os antibióticos mas vamos à procura de lesões que eles produzem nas células sem estar à espera do crescimento. Procuramos ativamente a lesão com diferentes marcadores e encurtamos o tempo de incubação.”

A tecnologia já existe. “Temos um kit que foi feito por nós. É uma microplaca que tem os diferentes antibióticos e onde colamos as bactérias. Vamos ler no equipamento, que nos vai revelar as lesões produzidas. Conseguimos descriminar as bactérias que são sensíveis ou mais resistentes.”

O equipamento “é um software potente, que analisa muitas células e é mesmo rigoroso”, tratando-se da adaptação de um citómetro (conta, examina e classifica partículas microscópicas) em que a FASTinov “desenvolve um algoritmo para interpretação” dos dados.

Cidália Pina Vaz adianta que “pode ser comparado com um microscópio mas em vez de a pessoa estar a ver muitas células, é o equipamento que analisa diferentes tipos de células. É muito rápido, analisa muitas células em pouco tempo”.

Sofia Oliveira, que é coordenadora científica no projeto, mais nova do que os dois colegas fundadores, explica que esta nova aplicação na microbiologia é o grande progresso em curso. “Com o nosso kit e o algoritmo conseguimos aplicar a citometria à microbiologia o que é uma mais-valia”, afirmou. Para o algoritmo houve uma empresa de software que colaborou, a µRoboptics, que “por acaso não trabalhava muito na área da saúde”.

Dar uma orientação ao médico

Com os resultados deste kit, “vamos dar ao clínico uma orientação com o que medicar e também a dosagem. Agora têm de dar mais antibiótico do que o que teriam de dar e com maior erro”.

“Os surtos de bactérias difundem-se muito rapidamente pelos hospitais. Ao fim de três dias, o doente já foi ao raio X, já fez uma ressonância, já esteve num internamento. Vamos gastar muito dinheiro a isolar o doente e já com uma eficácia quase nula”, diz Acácio Rodrigues, que dá o exemplo de um doente queimado: “É o que mais circula por um hospital, é impressionante. Muitas vezes entra num serviço de urgência, depois vai para uma unidade de Coimbra e depois é transferido para a Prelada, por exemplo. São doentes que desenvolvem muitas bactérias.”

Neste percurso as infeções hospitalares propagam-se. “É um problema mundial. Na Europa somos o país que tem mais infeções – é um exemplo das típicas ineficiências portuguesas -, estamos há muitos anos a gastar muito dinheiro a combater uma coisa que não desce. Em Portugal há margem para melhorar muito.” Sofia Oliveira diz que o produto poderá ter aplicação à escala global, já que “o mercado é mundial e enorme” mas a comercialização já não será feita pela FASTinov. Noutra vertente, Cidália Pina Vaz refere mesmo que “os clínicos vão pedir mais testes. Agora nem pedem por, em muitos casos, já não valer a pena”, dada a demora na resposta.

Para os fundadores é um orgulho a FASTinov ter nascido no serviço de microbiologia. “Quando integrámos o Cintesis já havia a empresa. É um trabalho com anos.”

Este artigo foi publicado originalmente no Diário de Notícias

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