Uma vénia ao nosso Nobel. José Saramago morreu há 9 anos…

Era um génio da palavra. E, como todos os génios, incomodava. Ateu convicto, José Saramago, não tinha meias palavras na hora de “gritar” contra o que considerava errado. Por isso, embora idolatrado por muitos, era também olhado com desdém por outros tantos. Estava longe de ser consensual. E esse era outro dos seus méritos. Não fazia favores a ninguém.

O Nobel da Literatura que venceu em 1998 foi – ainda é – motivo de orgulho para muitos portugueses. A maioria, quero acreditar. Mas, não tenho dúvidas, foi igualmente motivo de “azia” para muitos outros. E isso é lamentável. Somo assim, “pequeninos” quando não entendemos os génios.

Mas Saramago continua vivo e essa será a sua maior afronta aos críticos.

Filho e neto de camponeses, José Saramago nasceu em 1922, na vila de Azinhaga, concelho da Golegã, no Ribatejo. O registo oficial menciona o dia 18 de novembro como o do seu nascimento, mas, na verdade, nasceu antes, a 16.

Na busca de uma vida melhor, os pais partiram para Lisboa quando o pequeno José ainda não tinha completado 2 anos. Corria o ano de 1924, o mesmo em que morreu o seu irmão, Francisco de Sousa. A maior parte da sua vida decorreu, portanto, na capital, embora até aos primeiros anos da idade adulta fossem numerosas e, às vezes, prolongadas, as estadias na aldeia natal.

O pai, José de Sousa, embora camponês chegou a ser polícia. A mãe, Maria da Piedade, trabalhava no campo e em casa.
A origem do apelido Saramago remete para a alcunha da família. Saramago é uma planta que cresce na região da Golegã. À data do registo de nascimento de José, o conservador, erradamente, regista-o com a alcunha pela qual a família era conhecida.

Desde cedo José demonstrava interesse pelos estudos e pela cultura, sendo que essa curiosidade perante o Mundo o acompanhou até à morte.
Dificuldades económicas impediram-no de fazer os estudos de liceu que o levariam à universidade. Em vez disso, formou-se numa escola técnica e teve o seu primeiro emprego como serralheiro mecânico.

Fascinado pelos livros, visitava, à noite, com grande frequência, a Biblioteca Municipal.

Aos 25 anos, publicou o seu primeiro romance, “Terra do Pecado”, em 1947, o mesmo ano em que nasceu a sua única filha, Violante dos Reis Saramago, fruto do casamento com Ilda Reis, com quem se casou em 1944 e com quem ficaria até 1970.

Nessa época, Saramago era funcionário público, trabalhando na área da saúde e da previdência social.

Viveu, entre 1970 e 1986, com a escritora Isabel da Nóbrega. Em 1988, viria a casar-se com a jornalista e tradutora espanhola Maria del Pilar del Rio Sanchez, que conheceu em 1986 e ao lado da qual viveu até à morte. Em 1955, para aumentar os seus rendimentos, começou a fazer traduções de Tolstói e de Baudelaire, entre outros.

Depois de “Terra do Pecado”, em 1947, José Saramago apresentou ao seu editor o livro “Clarabóia” que, depois de rejeitado, permaneceu inédito até 2011.

Voltaria a publicar apenas em 1966, quando lança “Os Poemas Possíveis”. Depois, no espaço de 5 anos, publica sem alarido “Provavelmente Alegria”, em 1970, e “O Ano de 1993”, em 1975. É neste período que muda de emprego e vai trabalhar para o Diário de Notícias. Mais tarde, muda-se para o Diário de Lisboa. Mas, em 1975, regressa ao Diário de Notícias como Director-Adjunto e por lá permanece por 10 meses, até novembro. Na altura, os militares intervêm no jornal, reagindo ao que consideravam ser os ‘excessos da revolução dos cravos’.

Saramago acabaria demitido e resolve dedicar-se apenas à literatura, deixando o jornalismo.

A propósito desta fase, diria em entrevista à Playboy, em 1995, o seguinte: “Estava à espera que as pedras do puzzle do destino – supondo-se que haja destino, não creio que haja – se organizassem. É preciso que cada um de nós ponha a sua própria pedra, e a que eu pus foi esta: ‘não vou procurar trabalho’.”

E assim, ‘nasceu’, definitivamente, o escritor.

Mas antes, José Saramago foi muita coisa. Serralheiro mecânico, funcionário público e jornalista, como já referido. Foi também desenhador, trabalhou numa editora, foi crítico literário na revista Seara Nova e foi comentador político.

É a partir de 1977 que passa a viver quase exclusivamente da sua escrita. É também nessa altura que começa a afirmar-se como um dos autores portugueses de maior destaque. Porém, as marcas características do seu estilo literário só começam a surgir com “Levantado do Chão”, em 1980, livro no qual o autor retrata a vida de privações da população pobre do Alentejo.

Em 1982 surge “Memorial do Convento”, livro que conquista definitivamente o público e a crítica.

Seguem-se anos de grande produção literária. Entre 1980 e 1991, Saramago publica mais 4 romances: “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, em 1985; “A Jangada de Pedra”, em 1986; “História do Cerco de Lisboa”, em 1989; e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, em 1991. Com este último, o autor ‘compra’ uma polémica com a Igreja. Com este romance, Saramago reescreve o livro sagrado sob a óptica de um Cristo que não é Deus e se revolta contra o seu destino e onde questiona o lugar de Deus, do cristianismo, do sofrimento e da morte.

Entre 1995 e 2005, o autor publica mais 6 romances, todos com enorme impacto junto do público, sobretudo, os que são publicados depois de 1998 o ano em que José Saramago conquista o Prémio Nobel da Literatura:
“Ensaio sobre a Cegueira”, em 1995; “Todos os Nomes”, em 1997; “A Caverna”, em 2001; “O Homem Duplicado”, em 2002; “Ensaio sobre a Lucidez”, em 2004; e “As Intermitências da Morte”, em 2005.

Nesta fase, Saramago penetrou nos caminhos da sociedade contemporânea, questionando a sociedade capitalista e o papel da existência humana condenada à morte.

Escreveu romances, crónicas, peças de teatro, contos, poesia, histórias infantis…

Deixou um legado literário inigualável, sem preço, que deve honrar todos os portugueses.

Era conhecido por utilizar um estilo próprio que o definia. Ou se gostava, ou se odiava. Utilizava frases e períodos longos, usando a pontuação de forma pouco convencional. Muitas das suas frases chegavam a ocupar mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Da mesma forma, muitos dos seus parágrafos poderiam ocupar um capítulo inteiro no livro de um qualquer outro autor. Esta forma de escrita chegava a confundir o leitor, mas era, igualmente, fascinante.

Estas características tornam o estilo de José Saramago único na literatura contemporânea, sendo considerado por muitos críticos um mestre no tratamento da língua portuguesa. Em 2003, o crítico norte-americano Harold Bloom considerou Saramago “o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje”, referindo-se a ele como “o Mestre”. Declarou ainda que o escritor português “é um dos últimos titãs de um género literário que se está a desvanecer”.

Antes de ser galardoado com o Prémio Nobel, Saramago também ganhou, em 1995, o Prémio Camões, a mais importante distinção literária da língua portuguesa.

Em agosto de 1985 foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant’lago da Espada e, três anos depois, foi elevado a Grande-Colar da mesma Ordem, uma honra geralmente reservada apenas a Chefes de Estado.
José Saramago viu algumas das suas obras adaptadas para o cinema. Em 2008, “Ensaio sobre a Cegueira”, chegou ao grande ecrã pelas mãos do realizador Fernando Meirelles e tendo como protagonistas Julianne Moore e Mark Ruffalo. No mesmo ano, “A Jangada de Pedra” também se transformou em filme.

Em 2010, um conto do livro “Objecto Quase” é adaptado e transforma-se no filme “Embargo”.

Em 2014, é a vez de “O Homem Duplicado” ser colocado em filme, protagonizado por Jake Gyllenhaal.
Antes, em 2008, a história infantil “A Maior Flor do Mundo”, também deu filme.

O “Memorial do Convento” foi adaptado a uma ópera, “Blimunda”, criada no Scala de Milão, em 1990.
José Saramago, conhecido pelo seu ateísmo, foi membro do Partido Comunista Português. Foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura. Pertenceu à primeira Direcção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, entre 1985 e 1994, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores.

No dia 29 de Junho de 2007, criou a Fundação José Saramago para a defesa e difusão da Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos problemas do meio ambiente. Em 2012, a Fundação abriu as portas ao público na Casa dos Bicos, em Lisboa, presidida pela esposa Pilar del Rio.

José Saramago morreu no dia 18 de junho de 2010, aos 87 anos, na sua casa na ilha espanhola de Lanzarote, nas Canárias. Morreu vítima de leucemia crónica. O escritor estava doente há algum tempo e o seu estado de saúde agravou-se na última semana de vida. O seu funeral teve honras de Estado, tendo o seu corpo sido cremado no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa. As cinzas do escritor foram depositadas aos pés de uma oliveira, em Lisboa, a 18 de junho de 2011, exactamente um ano após a sua morte.

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