Os vieses cognitivos estão presentes na nossa vida muito antes de lhes darmos um nome. São pequenos atalhos que o cérebro usa para tentar simplificar as escolhas do dia a dia, mas que às vezes nos levam exatamente para o lado oposto do que seria melhor. Quem nunca tomou uma decisão que parecia perfeita na altura e dias depois pensou: mas como é que eu me meti nisto?
Na vida financeira isto acontece mais vezes do que admitimos, seja numa compra feita por impulso, num investimento precipitado ou numa aposta feita num momento de emoção. Só damos pelo erro quando o dinheiro já saiu e não volta atrás. Perceber estes mecanismos é meio caminho andado para decisões mais calmas num mundo onde parece que tudo tem de ser feito para ontem.
A influência dos atalhos mentais na vida financeira dos portugueses
É verdade que hoje os portugueses estão mais atentos às finanças pessoais, mas isso não nos torna imunes a escolhas apressadas. Basta uma promoção demasiado tentadora, uma recomendação vinda de alguém que achamos que percebe do assunto ou um jogador que marcou no último jogo para ativar o piloto automático. A mente prefere decidir rápido do que decidir bem e esse impulso pode custar caro.
Quando entendemos como estes vieses funcionam, ganhamos mais margem para parar, respirar e olhar para a decisão com outra clareza. E isso faz diferença, especialmente num país onde cada vez mais pessoas investem por conta própria, compram online e apostam através do telemóvel.
O impacto destes vieses nas apostas desportivas
Um dos aspetos da nossa sociedade onde esse tipo de mecanismos é mais visível, é nas casas de apostas desportivas, que sabem tirar perfeitamente partido do mesmo. O jogo problemático é uma das doenças mentais que mais tem crescido com a normalização e legalização desta area em Portugal, ha cerca de uma década.
Com um marketing bastante agressivo e omnipresente no nosso dia a dia, as apostas desportivas acabam por ser um “laboratório” bastante interessante. Entre a ilusão de obter ganhos altos, com as promoções recorrentes ou ainda com cada vez mais casas de apostas com bónus grátis, a tentação é grande e a ativação dos vieses cognitivos é natural.
Estamos a decidir depressa, muitas vezes durante o jogo, com odds a mudar de segundo para segundo e com emoções ao rubro. As casas de apostas facilitam tudo com pagamentos instantâneos, estatísticas em direto e apps mais rápidas do que nunca, mas essa rapidez também abre portas ao impulso.
O apostador que percebe estes mecanismos acaba por tomar decisões mais frias. Analisa quem pode marcar com mais calma, evita seguir apenas aquilo que está na moda e não deixa que uma vitória ou uma perda o leve a exageros. O jogo continua a ser jogo, mas a experiência fica muito mais controlada e menos dependente do acaso.
Viés da ancoragem, quando nos agarramos à primeira referência
O viés da ancoragem é daqueles que todos conhecemos, mesmo sem saber o nome. Ouvimos um número ou uma informação qualquer e a partir daí tudo passa a girar à volta desse ponto inicial.
Se alguém diz que um produto custava o dobro do preço sentimos logo que estamos perante uma oportunidade, mesmo sem termos a certeza se o valor atual é realmente bom. O mesmo acontece nas apostas, quando um jogador faz um grande jogo e de repente achamos que ele vai repetir a performance, como se a forma de um atleta mudasse de um dia para o outro.
O problema é que esta âncora inicial domina a nossa avaliação e não nos deixa ver o contexto completo. Para contrariar isto é preciso um pequeno esforço, procurar mais dados, comparar cenários e não deixar que uma única referência mande na decisão.
Pensar devagar para decidir melhor
Os vieses cognitivos fazem parte da nossa forma de pensar, não são um defeito, são simplesmente atalhos criados para poupar tempo e energia. O problema é que nem sempre funcionam a nosso favor. Quando aprendemos a reconhecê-los ganhamos mais clareza e evitamos muitos erros que se repetem ao longo da vida, seja nas finanças pessoais, no consumo ou nas apostas.
Pensar devagar não significa complicar, significa dar espaço à razão antes de agir. Num mundo onde tudo acontece a correr, esta pequena mudança pode ser a maior vantagem que temos. Contudo, o mais difícil é aplicar este conceito, com tudo à nossa volta a andar a uma velocidade nunca vista.






